segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vício Frenético

Fassbender e Mulligan: Só essa cena já vale o filme.

Shame 

(idem), de Steve McQueen. Com Michael Fassbender e Carey Mulligan.


Quero começar essa resenha dizendo que, sem a menor dúvida, neste fim de semana assisti a um dos filmes mais corajosos de minha vida de cinéfilo. Não há quem possa negar que só pela sinopse do filme você já terá uma vaga, mas forte ideia de como um tema tão rico e igualmente pesado possa chegar as telas de cinema: 


Brandon Sullivan é um morador de Nova Iorque viciado em sexo. Seja ele casual, virtual, anal, animal, grupal, qualquer um. Tudo muda na vida do rapaz quando sua irmã (Mulligan) carente e passiva se instala em seu apartamento (leia-se antro de toda pornografia existente) e inicia uma relação confusa e reveladora com o irmão. 

Mas antes que alguém ai grite “incesto”, espere e confie em mim. Até o começo do terceiro ato, durante o revelador diálogo entre irmãos que explica a natureza de ambos, e o motivo da “vergonha” não traduzida brilhantemente pelas distribuidoras brasileiras, ninguém pode dizer que não há mais nesse relacionamento do que somente aquilo que a superfície da sinopse mostra. 

Há algum tempo, durante uma aula de roteiro que tive, me lembrei de um professor explicando que atores e o próprio público não gostam de personagens prontos os quais eles entendam na primeira descrição ou cena. Todos nós gostamos de sermos surpreendidos por um personagem, mesmo que o conheçamos bem de outros filmes ou histórias. Lembro que o exemplo que ele nos deu foi de uma cebola: quanto mais a descascamos, quanto mais dedicamos tempo à ela, descobrimos outras camadas. E eu acrescento: maior é a chance de nos emocionarmos com ela. 

Afinal de contas só nos comovem aqueles de quem conhecemos o suficiente para ter algum sentimento, mesmo que este seja a repulsa. Assim é a atuação de Fassbender (o Magneto de X-Men: Primeira Classe) e Mulligan (que alias, esse ano também está em cartaz com o brilhante Drive. Vai saber escolher papel assim no inferno). Uma atuação mais rica do que qualquer personagem dos três filmes dos Transformers juntos.

Ambos se despem de qualquer vergonha – literalmente alias, já que os dois toparam cenas de nu frontal, mesmo que estas sejam desprovidas de erotismo – para criarem seres criveis, complexos, e até incapazes de encontrar a redenção. O nível de imersão é tanta que o Brandon de Fassbender não consegue entender sentimentos simples como amor, companheirismo, e amizade. Pedir que ele seja privado de seus vários orgasmos diários é quase como querer que um serial killer se arrependa de ter estripado uma pessoa. E o sujeito passa isso tudo com um olhar. Ou o desvio do olhar. 

Infelizmente os Oscars ainda sofrem com um tabu milenar incapaz de perceber como a riqueza dos filmes se encontra nas pequenas nuances de atuação e direção de obras raras como este filme. Seria o meu favorito para todas as categorias.  

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Trailer que Cypreste - Area Q


Você provavelmente já se pegou no escurinho do cinema entoando as frases, "que trailer horroroso" ou "brasileiro não sabe fazer trailer".

Longe de generalizar, mas este final de semana fui ao cinema para ver Heleno e me deparei com o trailer de Area Q, filme que estreia neste fim de semana. Não vi o filme em si, e muito menos posso dizer do que ele se trata exatamente, mas é inegável que o trailer original é muito, mas muito ruim, alem de entregar boa parte da história e o vender como filme-espírita - algo que o próprio diretor chegou a desmentir publicamente.

Então lanço aqui a nova coluna desta diversão digital que chamo de blog para comparar o trailer original de uma produção e como ele poderia ter ficado (claro que se pudesse contar com um material melhor alem do que pude tirar da internet, o enquadramento e o áudio poderiam ficar bem melhor).

A razão disso é para que não engulamos simplesmente qualquer pedaço de filme disfarçado de trailer. Não acho que o meu trailer é superior, só quero provar que é possível se fazer coisa melhor mesmo quando se trata de uma produção nacional de baixo orçamento.

Assistam os dois e digam sinceramente qual está mais do seu agrado.

Area Q - trailer original

Area Q - trailer que Cypreste

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Food Wars - Ep. 1: A Ameaça Fantasma

Lawrence e Hutcherson: eles estão do mesmo lado? 

Jogos Vorazes 

(Hunger Games), de Gary Ross. Com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Stanley Tucci, Elizabeth Banks e Wes Bentley.


Baseado na trilogia futurista de Suzanne Collins, o filme conta como uma jovem camponesa é escolhida para participar de um reality show onde crianças e adolescentes dos 12 distritos restantes do que já foi o EUA batalham para saber qual deles terá direito a receber os escassos recursos e alimentos que o governo pode providenciar. Assim, a trama se divide em duas partes que consistem na escolha e treinamento dos participantes (um pouco longa, é verdade, mas pense que o filme se trata de uma trilogia e visto como um só, esse início é importante para estabelecer os personagens), e finalmente na batalha em si, onde there can be only one, MacLeod! 

Mas a grande sacada do filme não está na violência da história e muito menos nos efeitos especiais que uma ficção cientifica exige. Como filme de um roteirista consagrado como Ross, a trama só poderia render bons diálogos e um excelente gancho para a sua sequencia em 2014. 

Começando pelo elenco de apoio que conta com nomes consagrados de atores que sempre fazem ótimos coadjuvantes, como Stanley Tucci e Woody Harrelson, a história na verdade segue um romance entre Katniss (Lawrence), Gale (Liam Hemsworth, irmão do ator que faz o Thor) e Peeta (Hutcherson). Ela gosta do primeiro mas não assumem seu romance apesar do desejo do rapaz, e Peeta, bem, este é o grande personagem e a razão para se ver o filme para mim. 

Spoiler: Não li os livros e agradeceria se não me contassem o futuro da trama, mas de cara já veria a trilogia para saber quais os planos desse rapaz. Peeta é distante, frequentemente assustado, mas também um estrategista nato. Alias, o filme nunca deixa claro que ele realmente ama a menina como diz, ou o diz para criar uma relação que o beneficie dentro do jogo. Todos os seus movimentos – desde a escolha por não procurar uma arma no começo, se aliar aos mais fortes, e depois à menina que ele diz amar – tudo que ele diz – e ai devo exaltar a maravilhosa atuação de Hutcherson, que cresceu muito como ator desde Zathura – nada parece vazio ou em vão, ou mesmo verdade. 

Talvez ai esteja o grande Darth Vader de toda essa trama futurista que promete. E já que Ross adiantou que não irá continuar, espero que saibam escolher alguém capaz de segurar a onda. Afinal de contas, material para uma franquia de qualidade os estúdios têm. E ao contrário das outras, acredito sinceramente que Collins realmente tenha chupado muito de sua trama de outros filmes (eu mesmo sou muito fã de Batalha Real), mas poucos conseguiram misturar política e ganância num produto direcionando para adolescentes.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Jesus Cristo de Marte

Por incrível que pareça, este é William Dafoe, um dos motivos para ver o filme.
John Carter: Entre dois mundos (John Carter), de Andrew Stanton. Com Taylor Hirsch. 

Como diria o bom e velho Sombra, "eu conheço o mal que reside nos corações de vocês". Absolutamente todos os cinéfilos que bateram o olho desde a primeira vez em algum trailer ou material de divulgação de John Carter se questionou se cederia 138 min de sua vida para assistir uma história com cara de Avatar e sobre um personagem que ninguém lembra de ter sequer ouvido falar. John Carter é personagem de um dos 11 livros de Edgar Rice Bourroughs sobre Barsoom (Marte), mas o sujeito ficou famoso mesmo quando largou essa longa sequência e partiu para escrever a história de um tal de Tarzan. 

A pulguinha que me coçava atras da orelha era o fato que o filme é o primeiro live-action dirigido pelo mesmo criador/roteirista Andrew Stanton de Procurando Nemo e Wall-E, e que depois de seus Oscars pelos filmes teve carta branca para escolher o projeto que desejasse para filmar. Então o que esperar desse sujeito? Bom, Stanton não desaponta. O filme realmente entretém, emociona, faz rir, tudo com um ritmo dinâmico, apesar de todo o bla-bla-bla sobre a política marciana e os deuses que querem dominar aquele mundo. John Carter não é Jesus Cristo, apesar das iniciais, mas convence como o salvador cheio de dons extraordinários que veio para livrar o mundo do mal demoníaco e também divino. 

Agora sejamos sinceros! Quando todo mundo viu o que seria o Avatar de James Cameron todos acham que o sujeito tinha surtado e que aquela produção de zilhões seria um fracasso. Nada muito diferente do que aconteceu com este mesmo John Carter. É bem verdade que há vários furos no roteiro (algo que não esperava de um roteirista como Stanton), e Taylor Hirsch está longe de ter o carisma e a capacidade de segurar uma produção deste porte como, digamos, um Hugh Jackman. Mas devo confessar que fiquei feliz de ver que alguém ainda é capaz de criar seres alienígenas simpáticos e capazes de causar identificação sincera com o público - coisa que o mestre no riscado George Lucas foi incapaz nos três prequels de Star Wars

Não vou nem entrar no mérito do sujeito ser transportado para um planeta onde existem armas de fogo mas as tribos ainda preferirem lutar com espadas, e o sujeito - oriundo do velho oeste - magicamente se torna expert na esgrima e pilotagem de uma espécie de pod-racer (ou seja lá o que for, mas que vai vender muito brinquedo). O maior problema do filme reside no personagem titulo em si. Quem é John Carter afinal? Sabemos que ele perdeu mulher e (provavelmente um filho) mas o filme deixa muito vaga a história do sujeito e as razões porque deveríamos torcer por ele - ter o nome no cartaz do filme não é razão, não insistam. 

Mas, apesar dos pesares, não se esqueçam da mensagem de Hugo, de Scorsese de que desde os primórdios do cinema, a sétima arte assim como todas as outras, foi criada para divertir e te transportar para um mundo mágico. Te fazer sonhar, rir, se assustar e nem sempre pensar ou questionar muito o que se vê. E o filme é isso. Entretenimento e pipoca com gosto agradável e digestão descartável.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Liam Neeson emociona no tenso A Perseguição

Liam Neeson no inferno gelado de The Grey
A Perseguição (The Grey), de Joe Carnahan. Com Liam Neeson. 
Estréia 13 de abril.

Lembro da primeira vez que vi um filme com Liam Neeson. Era Darkman, de Sam Raimi. Uma previa do que viria a ser a trilogia Homem-Aranha, mas com um herói obscuro, violento, marcado psicologicamente por perdas e cicatrizes que eventualmente voltam à tona para lhe cobrar um novo preço. Vinte anos se passaram e o ator se especializou no gênero de ação, conquistando um publico carente de Stallones e Van Dammes. Foi de mestre coadjuvante de heróis para papel principal de bons filmes e outros um tanto quanto duvidosos. E a gente esquece um pouco que ele já viveu intensamente Oskar Schindler e Valjean, de os Miseráveis

Mas eis que depois de realizar a bomba Esquadrão Classe A, Joe Carnahan resolveu voltar as origens de seu excelente filme de estréia, o cru e brutal Narc, e trazer o ator que existe em Neeson junto de volta. 

O resultado é este belíssimo filme (nota 7.5 no IMDB, um feito difícil para filmes desse gênero), que apesar do trailer, muito pouco tem de ação, mas em nenhum momento deixa de ser envolvente e extremamente assustador. Neeson segura a produção desde os primeiros minutos – que deixarão a dúvida se realmente se trata de um filme americano, tamanha a carga dramática e a montagem tipicamente européia –, passando pela impactante cena do acidente do avião, que culmina com o ator convencendo um dos passageiros a aceitar a morte, e por fim, o verdadeiro duelo do filme, a luta contra uma alcateia de lobos, que pode levar os sobreviventes à salvação ou para dentro do covil dos próprios animais. 

É o eterno embate desigual entre homem e natureza, só que escrito e dirigido por um ex-jogador de futebol americano. Pode parecer bobo, mas o diretor (que sabe escrever diálogos envolventes) acaba criando algo diferente do que estamos acostumados a ver neste tipo de produção. 

E apesar da tradução em português, o “Grey” do titulo original me lembra o personagem de Tom Cruise em Colateral, de Michael Mann. Um assassino sócio-politizado grisalho e de terno cinza para representar o embate das cores preto e branco, provando que o mundo não é tão simples para o delinearmos para o Bem ou o Mal. Existe uma área cinza, confusa, injusta, e como as belas paisagens desta produção mostram, as vezes também muito belas.

domingo, 4 de março de 2012

O Pai e o Filho Rebelde da Psicanálise

Fassbender e Mortensen em Um Método Perigoso


Um Método Perigoso (A Dangerous Method), de David Cronenberg. Com Michael Fassbender, Kiera Knightley e Viggo Mortensen.
Estréia 20 de Abril.

Para qualquer psicanalista ou estudante da arte, Um Método Perigoso é um deleite. Um daqueles filmes que merece ser visto, dissecado, e ter memorizado cada frase. A trama que mostra do começo ao fim a tempestuosa “amizade” (por falta de palavra mais falsa) entre Carl Jung (Fassbender) e Freud (Mortensen) tendo como pano de fundo as bases de desenvolvimento da psicanálise e o relacionamento do primeiro com uma de suas pacientes (Knightley, destoantemente caricata e exagerada).

Conduzido com maestria literal por um dos meus diretores favoritos, o filme poupa em sangue e no bizarro (características da filmografia de Cronenberg que poderão ser novamente vistas em seu próximo filme Cosmópolis), para retratar com precisão como o trio consegue lutar para reprimir seus impulsos variados, e característicos da época, ao mesmo tempo que se lançam em relações hora fraternais, hora profissionais, quase como um jogo de quem consegue derrotar o outro, usando regras próprias.

Os melhores momentos da produção são obviamente as cenas (ficcionais ou não, não importa) entre os dois pais da psicanálise, a princípio amistosa, criando diálogos longos e respeitosos, e mais tarde, acida, direta e pessoal, criando no espectador um desejo de tomar o lado de qualquer um, mesmo que ambos estejam certos e errados. É quase como colocar frente a frente Einstein e Newton, ou Hitler e Kennedy, com a simples diferença que estes dois gênios, realmente viveram na mesma época e realmente se encontraram. E talvez por essa dualidade, tenham definido o comportamento de uma sociedade. Ou como descritas nas apocalípticas palavras de Freud ao chegar nos EUA, “eles sabem que estamos trazendo a praga?”.

A questão que fica é, com uma idéia tão rica numa cultura tão pobre, por que um filme desses levou tanto tempo para ser feito?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Oscar 2012

Numa festa pra lá de sonolenta, conservadora e sem muitas surpresas, o Oscar 2012 premiou O Artista como melhor filme do ano passado. Eu curti o filme, achei a idéia boa, execução perfeita, mas a quantidade de prêmios que o filme levou foi excessiva. Mas o que seria da magia do Oscar se concordássemos 100% com tudo que eles acham ou viram, ou mesmo, não viram sobre os filmes de 2011?

Esse ano, conheço muita gente que deixou de ver os filmes concorrentes porque achou os candidatos fracos. Se isso for verdade a festa deste ano foi no mesmo nível. Billy Cristal estava no automático. As piadas foram poucas e mesmo assim dignas somente de um sorrisinho de canto de boca. O pior é que o cenário estava extremamente pobre (motivo de piada até do próprio apresentador), o que visualmente só decepcionou ainda mais o evento.

Absolutamente ninguém, nem mesmo Meryl Streep, nem o diretor de A Separação, que deu ao Irã seu primeiro Oscar num filme rejeitado no próprio país, nem a vencedora de Saving Face, que chama atenção para o sofrimento de duas mulheres do Paquistão, ninguém fez um discurso inspirado, digno de uma premiação grandiosa como o Oscar.

O momento alto da festa? Os roteiristas de Os Descendentes imitando a pose sexy de Angelina Jolie. E só.

Nota pessoal: para quem se recusou entrar no bolão comigo, só acertei 9 categorias. Um recorde negativo, devo acrescentar.

Confira os vencedores do 84º Oscar:

Melhor Filme
"O Artista"

Melhor Ator
Jean Dujardin ("O Artista")

Melhor Atriz
Meryl Streep ("A Dama de Ferro")

Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer ("Toda Forma de Amor")

Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer ("Histórias Cruzadas")

Melhor Diretor
Michel Hazanavicius ("O Artista")

Melhor Roteiro Original
"Meia Noite em Paris"

Melhor Roteiro Adaptado
"Os Descendentes"

Melhor Trilha Sonora
"O Artista"

Melhor Canção
Man or Muppet ("Os Muppets")

Melhor Filme Estrangeiro
"A Separação" (Irã)

Melhor Animação
"Rango"

Melhor Curta-metragem
"The Shore"

Melhor Curta de animação
"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore"

Melhor Fotografia
"A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Direção de Arte
"A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Figurino
"O Artista"

Melhor Maquiagem
"A Dama de Ferro"

Melhor Documentário (Longa)
"Undefeated"

Melhor Documentário (Curta)
"Saving Face"

Melhor Montagem
"Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres"

Melhor Efeitos Visuais
"A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Efeitos Sonoros
"A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Edição de Som
"A Invenção de Hugo Cabret"