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| Fassbender e Mulligan: Só essa cena já vale o filme. |
Shame
(idem), de Steve McQueen. Com Michael Fassbender e Carey Mulligan.
Quero começar essa resenha dizendo que, sem a menor dúvida, neste fim de semana assisti a um dos filmes mais corajosos de minha vida de cinéfilo. Não há quem possa negar que só pela sinopse do filme você já terá uma vaga, mas forte ideia de como um tema tão rico e igualmente pesado possa chegar as telas de cinema:
Brandon Sullivan é um morador de Nova Iorque viciado em sexo. Seja ele casual, virtual, anal, animal, grupal, qualquer um. Tudo muda na vida do rapaz quando sua irmã (Mulligan) carente e passiva se instala em seu apartamento (leia-se antro de toda pornografia existente) e inicia uma relação confusa e reveladora com o irmão.
Mas antes que alguém ai grite “incesto”, espere e confie em mim. Até o começo do terceiro ato, durante o revelador diálogo entre irmãos que explica a natureza de ambos, e o motivo da “vergonha” não traduzida brilhantemente pelas distribuidoras brasileiras, ninguém pode dizer que não há mais nesse relacionamento do que somente aquilo que a superfície da sinopse mostra.
Há algum tempo, durante uma aula de roteiro que tive, me lembrei de um professor explicando que atores e o próprio público não gostam de personagens prontos os quais eles entendam na primeira descrição ou cena. Todos nós gostamos de sermos surpreendidos por um personagem, mesmo que o conheçamos bem de outros filmes ou histórias. Lembro que o exemplo que ele nos deu foi de uma cebola: quanto mais a descascamos, quanto mais dedicamos tempo à ela, descobrimos outras camadas. E eu acrescento: maior é a chance de nos emocionarmos com ela.
Afinal de contas só nos comovem aqueles de quem conhecemos o suficiente para ter algum sentimento, mesmo que este seja a repulsa. Assim é a atuação de Fassbender (o Magneto de X-Men: Primeira Classe) e Mulligan (que alias, esse ano também está em cartaz com o brilhante Drive. Vai saber escolher papel assim no inferno). Uma atuação mais rica do que qualquer personagem dos três filmes dos Transformers juntos.
Ambos se despem de qualquer vergonha – literalmente alias, já que os dois toparam cenas de nu frontal, mesmo que estas sejam desprovidas de erotismo – para criarem seres criveis, complexos, e até incapazes de encontrar a redenção. O nível de imersão é tanta que o Brandon de Fassbender não consegue entender sentimentos simples como amor, companheirismo, e amizade. Pedir que ele seja privado de seus vários orgasmos diários é quase como querer que um serial killer se arrependa de ter estripado uma pessoa. E o sujeito passa isso tudo com um olhar. Ou o desvio do olhar.
Infelizmente os Oscars ainda sofrem com um tabu milenar incapaz de perceber como a riqueza dos filmes se encontra nas pequenas nuances de atuação e direção de obras raras como este filme. Seria o meu favorito para todas as categorias.






