Pode ver sem medo
Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky. Com Natalie Portman, Vicent Cassel, Mila Kunis e Winona Ryder.
Em Cartaz

Se o novo filme do cult diretor de Réquiem para um Sonho e O Lutador, se chamasse “A Metamorfose”, não seria uma ofensa nem a obra de Kafka, nem a de Freud. Essa é a melhor palavra para descrever as mudanças, frequentemente físicas, que você vai testemunhas nesse magistral trabalho de Natalie Portman no cinema (a favorita para a grande estatueta). Ela vive intensamente o papel de Nina, uma jovem bailarina que está prestes a assumir o posto de principal estrela da companhia dirigida pelo respeitado Thomas (Cassel), que encenará o clássico O Lago dos Cisnes. Seu problema é ser extremamente perfeccionista e metódica, o que a faz perfeita para o papel do cisne branco, mas não para o do cisne negro, a ser interpretado pela mesma pessoa. Alem disso, Nina se transforma numa pessoa cada vez mais paranóica com a chegada da nova integrante da companhia (Kunis), uma bailarina espontânea e cativante, totalmente oposta a ela (já deu pra perceber que um dos temas é realmente os opostos que vivem dentro de nós?).
Tratada pela mãe como se fosse uma menininha, com direito até a ursinhos e caixinha de música para dormir, Nina vive a pressão de ter que fugir da sombra da mãe – uma ex-bailarina que deixou os palcos para criá-la, e que por isso também exerce uma certa pressão sobre a menina – para sofrer a transformação que o papel do Cisne negro lhe exige. Ainda assim, é interessante ver o medo que a menina tem da mãe em descobrir suas feridas, o que a leva a frequentemente se trancar no banheiro ou no quarto para não expor suas cicatrizes. E embora o final do filme desagrade muita gente – até porque o trailer vende a produção como um suspense – está exatamente no surrealismo da idéia da transformação literal de uma menina presa no corpo de um cisne, que se rende ao “lado negro da força”, o grande pulo do gato, que diferencia essa produção das demais.
Portman faz um trabalho completo e extremamente tenso. É visível no rosto da atriz todo o processo (dois anos) que ela passou para encarar esse papel. Seu desgaste físico e emocional chega perto do perfeito – o que remete à perfeita caracterização de sua personagem, quase confundindo o expectador de onde começa uma e termina a outra (algo que fica também muito evidente no trabalho de Mickey Rourke em O Lutador, o que só enaltece ainda mais o trabalho de Aronofsky). Cassel faz seu diretor da companhia parecer um pervertido minimizando todas suas “direções” ao sexo, o que contribui ainda mais pra errônea percepção que todo tipo de sedução esta diretamente ligada ao sexo ou que todo diretor de balé é safado. Este alias parece ser o único deslize do filme, o que obviamente não compromete todo o seu esplendor. É simplesmente imperdível.
Não me Abandone Jamais (Never let me go), de Mark Romanek, com Carey Mulligan, Andrew Garfield e Kiera Knightly.
Estréia 18 de março.

Mark Romanek é um diretor que raramente se prende a gêneros ou maneirismos. Não possui um estilo de câmera, não usa filtros característicos, não emprega marcas pessoais em seus filmes. Mas costuma fazer um trabalho uniforme e extremamente realista de todo o elenco em suas produções. O primeiro filme dele que me chamou atenção foi Retratos de uma Obsessão, uma produção pequena que ficou estigmatizada por ser o primeiro vilão da carreira de Robin Willians – classificação boba, visto que seu excelente personagem nada tem de vilão. Neste filme, o diretor finalmente alcançou o respeito da critica que acertadamente começou a olhar para seu trabalho como diretor de atores. Assim, nem vou começar a falar do desempenho do elenco, pois ele todo está impecável, claro, com destaque para a jovem dupla de excelentes atores – já elogiados por mim em trabalhos anteriores – Mulligan e Garfield.
A trama gira em torno de três órfãos que criam um laço de amizade e paixão durante a infância, ao descobrirem que são cobaias para uma nova tecnologia que surgiu no final da década de 70. Estou sendo propositalmente vago, pois acredito que quanto menos vocês souberem sobre a trama, mais vão se apaixonar pelo destino de seus personagens. Longe de ser mais um dramalhão obvio como esses que aparecem nessa época do ano pra arrebatar alguma estatueta, o filme tem um ritmo fluido e força suficiente para sustentar uma boa discussão sobre o tema – e, claro, arrancar sinceras lágrimas de seu público. Não é necessariamente um filme sobre como levamos a vida que temos, mas como lidamos com ela ao saber que não se pode fugir de seu destino. E para todos nós ele é um só. A única coisa que nos unirá é o mesmo fim que todos teremos um dia.
Não entendo como um filme tão belo e tocante como esse pode ficar de fora de toda essa badalação de prêmios, inclusive dos ingleses, de onde a produção foi feita. Mas a razão dos estúdios terem ignorado o filme (muito superior a Inverno da Alma e O Vencedor, por exemplo) se chama O Discurso do Rei, representante britânico que não poderia dividir as atenções com outro, e por isso mesmo, chega tão bem cotado e forte para o Oscar 2011. Ainda assim, vale a conferida até mesmo para se perceber como a política dessas premiações pode destruir filmes menores mas de muito valor.
Bravura Indômita (True Grit), de Joel e Ethan Coen. Com Jeff Bridges, Matt Damon, Hailee Steinfeld e Josh Brolin.
Em Cartaz

Conheço poucas pessoas no mundo tão fãs dos irmãos Coen do que eu. Dos antigos – os quais vi todos em uma semana inspirada – gosto de poucos, mas inegavelmente há a assinatura dos irmãos independente do gênero. De Fargo em diante, acho todos simplesmente brilhantes. Até chegarmos em Bravura Indômita. Um filme tecnicamente perfeito e visualmente deslumbrante, mas que por ser um filme feito para um estúdio, ou seja, uma produção feita “sobre contrato”, a que menos remete à magistral filmografia dos diretores.
Mas embora o filme não seja nada mais do que uma boa e velha história de mocinhos e bandidos – aqui os irmãos são apenas corretos – o que realmente o classifica como imperdível é o trabalho esplendido dos atores. Uma pena que para Josh Brolin e Barry Pepper tenha sobrado tão pouco tempo na tela, reduzindo seus personagens quase a uma participação especial. Já Bridges tem tempo suficiente para fazer de seu cowboy uma das figuras mais emblemáticas que o western já produziu. É absurda a capacidade desse sujeito para compor personagens tão distintos – nem dá pra acreditar que é o mesmo sujeito que viveu o cantor Bad Blake ou Lebowski, personagens marcantes de sua filmografia. Seu xerife é tudo de errado que um mocinho poderia ser, e mesmo assim, até sua última cena ele mostra uma coragem e um senso de humor acima do normal. A interação com Damon é ainda mais interessante. Os dois vivem brigando durante todo o filme, e muitas vezes a impressão é que a briga é pelo simples fato de não querer de jeito nenhum concordar com o outro. E se nada no filme inova para o cinema pelo menos devemos elogiar a descoberta dessa jovem atriz chamada Hailee Steinfeld. Uma menina capaz de peitar Bridges de igual e que consegue extrair de um texto extremamente difícil o melhor de seu papel.
O que me incomoda um pouco em alguns filmes são o que eu chamo de coincidências favoráveis – muitas vezes um deux ex machina, ou simplesmente preguiça de roteirista – para resolver uma situação claramente sem solução. Mas se nem o trailer nos poupa dessa surpresa, pelo menos a maneira que os diretores conduzem a reviravolta não deixa tudo se perder. No geral, é um filme divertido e extremamente fiel à época (reparem em como a cidade cenográfica que muito aparece no começo é detalhadamente perfeita, ou como enquanto cavalgam à noite a fotografia do brilhante Roger Deakins falseia magistralmente a luz do luar). Mas não passa de diversão comercial dos irmãos. Ainda que se tratando dessa dupla de gênios, isso nunca é pouco.
O Discurso do Rei (The King´s Speech), de Tom Hopper. Com Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush e Guy Pearce.
Em Cartaz

Longe de ser a biografia do amado rei George VI (Firth), a produção do quase desconhecido diretor Tom Hopper é literalmente impecável. O filme conta uma parte da historia da Grã-Bretanha partindo do principio de que o príncipe Albert, gago desde os cinco anos e prestes a assumir um cargo de maior visibilidade com a nomeação do irmão (Pearce), precisará fazer mais discursos públicos. A solução é tratar do problema com um fonoaudiólogo sem formação (Rush) que acaba se tornando seu maior aliado quando ele precisa tomar uma decisão que vai afetar todo um país diante da eminente segunda guerra. Mas a trama em si, embora muito bem conduzida, é mero pretexto para assistirmos um desfile de bons atores e um roteiro de diálogos primorosos.
Mas este intenso filme oferece ainda mais. Tecnicamente, Hopper cobriu cada aspecto da produção para que entendermos que curar a gagueira não era simplesmente um capricho de um homem público. Para isso, as lentes amplas e seus planos baixos enfatizam o temor do rei por distorcerem e aumentarem o tamanho de pessoas e ambientes, provocando um desconforto quase sufocante no espectador. Isso somado a closes extremos que colocam a platéia quase no lugar do próprio personagem, e uma fotografia pálida apoiada por uma direção de arte que abusa de locais amplos e texturas detalhadas, causam exatamente o efeito contrário, ou seja, o de fobia e enclausuramento – o que aumenta ainda mais a tensão das situações e o entendimento sobre o problema do personagem.
Mas talvez nem estivéssemos falando deste filme se não fosse o trabalho magistral de Firth. Sua constante expressão triste e tensa denota a falta de confiança do sujeito, que obviamente reflete em sua maneira de falar. Firth é um ator extremamente técnico e minimalista, que não abre espaço para improvisos. Mas sua dedicação aos detalhes do personagem fazem com que até esqueçamos que ali atrás está o mesmo ator de outros filmes como Simplesmente Amor e O Diário de Bridget Jones. Seu desempenho realmente capta o que deve ter sido o momento difícil de assumir um país as vésperas de uma grande guerra e ainda superar seus medos pessoais. Toda atuação de destaque freqüentemente requer um bom trabalho de coadjuvantes à altura. E neste caso, Rush e Bonham Carter (sempre destaque mesmo em filmes fracos, como os últimos do marido Tim Burton) defendem seus papeis com unhas e dentes, com a paixão que todo ator deveria ter por seu personagem. É um filme daqueles que a Academia ama. Quase perfeito. E arrebatador.
127 horas (127 hours), de Danny Boyle. Com James Franco.
Estréia 18 de Fevereiro

O primeiro filme que assisti com James Franco era uma produção da TV americana sobre a vida de James Dean, no qual ele vivia o mesmo. Foi difícil convencer pessoas que não tinham visto o filme de que aquele era um grande ator que surgia em Hollywood depois de escolhas duvidosas em papeis que lhe deram destaque mas não a chance de mostrar seu talento (trilogia Homem-Aranha e Segurando as Pontas). Sejamos sinceros, Franco estava fadado a ser um eterno coadjuvante em produções medianas. Eis que surge para o sujeito de sorte, o roteiro sobre a vida de Aron Ralston e o convite do Oscarizado diretor Danny Boyle – ou seja, uma dupla oportunidade imperdível de fazer o filme.
E que filme! O titulo se refere ao tempo em que o jovem explorador ficou dentro de um desfiladeiro entre duas pedras enormes sendo que uma outra prendia o seu braço. Detalhe: ele não avisou ninguém onde estaria. Boyle foi corajoso em escolher um ator que não era visto pelos estúdios como digno de estampar o nome em um pôster ou atrair público. Coragem porque ao escolher seu ator principal, ele também estaria escolhendo o rosto que veríamos durante aquelas quase duas horas de filme e que nos faria sorrir, chorar, e se chocar dentro daquela gruta. A atuação de Franco deve ser comparada aqueles breves minutos em que Tom Hanks atua com uma bola de vôlei em Naufrago. Multiplique isso pelo tempo do filme e você vai ter uma idéia de como o sujeito foi capaz de interpretar com o nada por horas e ainda assim, viver os anseios e medos de um sujeito real.
Na resenha acima, eu disse que bons atores geralmente são ainda mais exaltados pelo trabalho de bons coadjuvantes. Pois Franco teria meu voto exatamente por não ter coadjuvantes de qualquer espécie (inseto não conta). Se não fosse a decisão de Boyle de sair do buraco, remetendo lembranças e delírios do personagem, acho que teríamos um filme mais conciso com a realidade dos fatos que inspiraram a produção. Mas temos que lembrar que Boyle é diretor de contos de fadas modernos e estilosos. A fantasia sempre está presente em suas produções e não o vejo com criatividade suficiente de segurar uma produção inteira em uma só locação, mesmo que isso requeira o apuramento visual, que ele obviamente tem, mas a coragem que um iniciante como Rodrigo Cortez teve no bom Enterrado Vivo, e que lhe falta. Talvez por isso Boyle esteja fora da lista de indicados. Mas nada que vá prejudicar o que realmente importa. A maravilhosa consagração de Franco como o grande ator que é, e que eu sempre disse que era.
Vá por sua conta e risco
O Vencedor (The Fighter), de David O. Russell. Com Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams e Melissa Leo.
Em Cartaz

A receita é obvia e recorrente: filmes de esporte baseados em fatos reais, com atores de peso e uma redenção após os duros percalços da vida. Desde Rocky – Um Lutador (que levou roteiro e melhor filme no Oscar), temos visto quase que todo ano um filhote parecido. E os americanos adoram. Só que a própria Academia aprendeu a diferenciá-lo dos outros. A vê-los como filmes premiáveis, mas somente se não houver outros mais originais, e por isso esse gênero chega mais como azarão do que para bater de frente na disputa por prêmios. E isso é O Vencedor, uma historia de dois irmãos filhos de pais diferentes, que são opostos como fogo e gelo. A mãe protetora finge que não vê enquanto o mais velho Dicky (Bale), um ex-boxer que teve um breve momento de consagração, se droga enquanto finge passar o que sabe para o mais novo, Micky (Wahlberg).
Embora não seja a primeira vez que ele interpreta um personagem assim (quem ai viu Tempos de Violência?), a única coisa que faz desse filme uma produção diferente de qualquer outra coisa que já se viu sobre o esporte, é Bale. Sem ele a produção é só um emaranhado de situações que, mesmo baseadas em fatos reais, pouco inovam para a trama. Isso fica claro quando o personagem é preso e deixado de lado por alguns instantes para que a história de superação de Mickey seja contada. O que se vê na tela na maior parte são as clássicas montagens de treinamentos e lutas que pouco acrescentam com uma atuação somente correta (como sempre) de Wahlberg. Enervante mesmo é escutar frequentemente a palavra “HBO”, que de tantas vezes pronunciada me fez perder a conta. Tudo bem que o canal a cabo é um dos patrocinadores do filme, mas martelar no espectador que se dedica ao esporte, e ao mesmo tempo à programas de cunho social, é muita lavagem cerebral, convenhamos.
As lutas, geralmente momentos importantes de um filme assim, são copias fieis do estilo de transmissão do canal. E embora O´Russell tenha feito um excelente trabalho de improviso com os atores, dentro do ringue isso não parece acontecer já que os golpes não escondem sua forçada coreografia. Há até uma luta no estilo Rocky – onde se “apanha, apanha e ganha com um soco” – que pode até ter sido verdadeira, mas não parece nem um pouquinho. E o final não deixa de ser a parte mais óbvia de toda a produção – uma pena para um longa que segue O Lutador, de Aronofsky, esse sim, com um final digno das grandes produções do gênero. No final das contas, apesar da boa direção de O´Russell, do excelente trabalho de Bale (que será recompensado merecidamente) e de Melissa Leo, O Vencedor é apenas um filme correto. E que se estivéssemos em um ano um pouquinho mais frutífero, nem estaria entre os indicados.
Inverno da Alma (Winter´s Bone), de. Com Jennifer Lawrence, John Hawkes e Sheryl Lee.
Em Cartaz

A única razão de eu estar escrevendo sobre esse filme, ou mesmo de tê-lo assistido chama-se Jennifer Lawrence, uma atriz de 17 anos que fez alguns trabalhos na televisão anteriormente, mas será vista em breve como a jovem Mística em X-Men: First Class. A atuação da jovem é realmente arrebatadora durante toda a projeção, e não somente na comentada cena do barco – que até entrou no pôster do filme para ficar na memória dos cinéfilos. Lawrence vive Ree, a mais velha de uma família de caipiras americanos do meio-oeste americano. Estamos falando de pessoas acostumadas a lutar pela sobrevivência, que vivem em condições sub-humanas, se chamam por nomes estranhos, e aprendem a atirar com 5 anos de idade. Ela é responsável pela mãe e dois irmãos mais novos. Vive da venda da madeira de sua propriedade, e graças à penhora que o pai fez de todos os pertences da família, caso ele não apareça na corte ou se não for provado que ele está morto, a família está fadada a perder o pouco que ainda tem. Ree começa então uma busca (que dura o filme todo) para descobrir o paradeiro do pai, até simplesmente alguém literalmente bater a sua porta e lhe dizer o óbvio final que conclui a produção.
Incrível é como um filme como este, mesmo que tenha vencido o Festival de Sundance (o que pra mim não quer dizer muito) conseguiu quatro indicações para o Oscar, incluindo uma chocante para seu roteiro. A atuação de Lawrance é realmente brilhante, fazendo até mesmo nós duvidarmos se ela é realmente tão jovem quanto sua personagem aparenta. A indicação de Hawkes para coadjuvante também é merecida, apesar de ter sido conquistada graças a uma única cena no filme. E podemos parar por ai. A direção é obvia, muitas vezes ruminante e extremamente maniqueísta – no local pintado pela diretora ninguém parece trabalhar, nem homens, nem mulheres, e a única coisa que parecem fazer com suas vidas é fumar, beber e se drogar. Isso ou se alistar no exército, a única critica que realmente exalta o filme e foge dos clichês. Os homens do filme, alias, são retratados todos como perdedores, machistas e maiores responsáveis pelas condições deploráveis em que as mulheres vivem. As mulheres surgem sempre ativas, corajosas e guerreiras. Se um filme que cria personagens tão estereotipados como esse merece ficar na memória dos cinéfilos, essa razão é esta maravilhosa atriz. O resto é raso e esquecível.