Este foi o ano em que todos os gêneros cinematográficos descobriram pequenos filmes surpreendentemente inteligentes e bem realizados, mesmo que com poucos ou nenhum rosto conhecido em seus elencos. Foi o ano em que os filmes mais falados eram desconhecidos de todas as listas de expectativa. Ninguém sabia do que se tratava as tramas de Se beber, não case, Distrito 9, Atividade Paranormal ou o premiado Quem quer ser um Milionário?, até que o boca a boca fez deles sucessos imediatos.
Foi um ano em que as grandes superproduções – cada vez mais voltadas para as crianças e adolescentes – voltaram a decepcionar embora tenham provado seus valores nas bilheterias e deixado os bolsos das distribuidoras recheados de dólares para garantir as continuações (com exceção do Exterminador e os G.I. Joes que vão se contentar com a geladeira mais uma vez).
Foi um ano de belíssimos mas poucos filmes estrangeiros, e de trabalhos contidos e discretos de diretores consagrados como Almodóvar e Woody Allen. Foi um ano em que os subversivos e alternativos dos EUA apelaram para seus lados infantis como Wes Anderson (O Fantastico Sr. Raposo) e Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros).
Essa é a minha lista sem qualquer ordem especifica:
Watchmen (EUA)
Uma visão única e extremamente adulta sobre a vida de um grupo de super-heróis renegados em um mundo paralelo à beira de um holocausto nuclear. Sem duvida, não é um filme para qualquer um, principalmente para o publico acostumado as historinhas que tem povoado nosso cinema recentemente. É anarquista, ultra-violento e corajoso, e merece ser visto e revisto simplesmente por ser um produto extremamente autoral feito numa indústria que não permite esse tipo de coisa com freqüência. Tem um texto maravilhoso com diálogos brilhantes e trama muito bem estruturada. E quem não aplaudir a atitude do vilão do filme, realmente não merece gostar dessa obra que um dia terá o reconhecimento, mesmo que tardio, assim como a própria revista em quadrinhos teve.
RESENHA: Forrest Gump dos quadrinhos
Distrito 9 (África do Sul)
Acho que falei tanto desse filme este ano que as pessoas devem pensar que eu devo estar ganhando um por fora para ajudar em sua divulgação. Na verdade nem é preciso. O filme foi tão bem vendido em uma campanha de marketing que merecia aplausos em pé, delimitando certos lugares como banheiros, cadeiras de cinemas, bancos de praça e estacionamentos, “somente para humanos” e deixando bem claro qual era a temática racista de um filme sobre alienígenas onde os vilões e verdadeiros destruidores do planeta somos nós. Foi a maior surpresa do ano, uma aula de como fazer entretenimento cabeça, e ainda criou uma legião de fãs que espera ávida por sua inevitável continuação.
RESENHA: O Estranho Mundo de Jackson
Se beber, não case (EUA)
Outro dos filmes mais falados e vistos do ano, essa despretensiosa e até inocente comédia de erros conquistou as platéias de todos os cantos do globo sem nenhum rosto famoso no elenco (Mike Tyson não conta e Heather Graham perdeu seu charme há muito tempo). A grande sacada da produção, alem da afinidade do elenco de atores, reside na trama focada exatamente na dor de cabeça do dia seguinte após a despedida de solteiro de um dos amigos, o qual desaparece um dia antes do casamento. Colocando-os em situações pra lá de estranhas enquanto procuram pelo sujeito, o roteiro consegue divertir e principalmente provar que não é preciso se apelar para escatologias e nudez para fazer o publico rir. E a continuação também já está à caminho, obvio. Que continue assim.
RESENHA: Três fanfarrões e um bebê
Trama Internacional (Alemanha/EUA)
Poucos tiveram a oportunidade de ver esse filme que voou pelas salas de cinema e chegou rapidinho às locadoras. Talvez seja melhor mesmo, pois no conforto de sua casa você tem a chance de ver e rever uma das melhores cenas de ação realizada na historia do cinema moderno. Não é exagero não. Este filme dirigido pelo mesmo sujeito de Corra Lola, corra e estrelado por Clive Owen e Naomi Watts foi, sem dúvida, a melhor produção policial do ano contando com uma trama ágil, esperta e até plausível sobre um grande banco internacional que financia atos terroristas e guerras para ganhar dinheiro com as conseqüências dos mesmos. Poucas vezes o cinema produziu um inimigo tão subjetivo e tão inatingível com tamanha destreza.
RESENHA: A herança Bourne
Deixe ela entrar (Suécia)
O filme sueco que surpreendeu fãs de terror no mundo inteiro nem mesmo é um filme de terror como conhecemos. Nessa onda de filmes vampiro-adolescentes o melhor deles é esta pequena produção sueca que ganhará uma refilmagem americana no ano que vem. A história de Oskar e Eli é um romance mirim em ritmo europeu, sem lições de moral ou mensagens diretas. Ainda assim é um dos filmes mais reflexivos e tocantes do ano, mesmo que conte com um clímax sangrento, como é de se esperar de um filme do gênero. Uma belíssima e original fuga para aqueles cinéfilos que buscam inovações dentro do tema cada vez mais “americanizado”, mas que só vai agradar aqueles que têm uma mente aberta para tal. Caso contrário, eu recomendo os “Harry Potter vampirescos” que estão pipocando por ai.
RESENHA: Eu sou vampirinho, vamp-vampirinho!
Quem quer ser um Milionário? (Inglaterra/Índia)
Não vou entrar em debates, mas soube que algumas pessoas se recusaram a ver esse filme por puro preconceito sobre isso ou aquilo que ouviram sobre ele. À essas pessoas eu só tenho uma simples coisa a dizer: problema de vocês se quiserem perder um dos ou talvez o melhor filme do ano. Slumdog é um conto de fadas moderno, rápido e quase surreal. Em um ano que as melhores produções não contavam com elencos milionários e tinham um custo abaixo de $40 milhões de dólares, este aqui foi não somente aquele que conquistou os membros da academia americana, mas também quase todas as premiações ao redor do globo. E se isso não fosse suficiente, arrebatou platéias, renovou a linguagem cinematográfica não linear, e dialogou de maneira sem igual com uma geração acostumada com histórias românticas sem graça e apelativas. Simplesmente arrebatador e extremamente original.
RESENHA: Era uma vez... na Índia.
Jean Charles (Brasil/Inglaterra)
Se me perguntassem que filme este ano tinha alguma chance de concorrer ao Oscar, eu diria o nome deste aqui sem pestanejar. Alem de tratar de um problema global, é uma envolvente viagem sobre a vida do imigrante e um comovente relato de como cada dia mais nos isolamos uns dos outros. Achei que iria ver mais um filminho emocionante sobre a vida de um sujeito sem imperfeições que morreu injustamente, e acabei preso na teia que o roteiro cria para te fazer esquecer o futuro trágico do personagem. Este filme não é só uma excelente produção nacional, mas também uma aula de como se filmar uma biografia sem exageiros. Tem excelentes atuações, um ator excepcional, e a mensagem de que as pessoas até deixam nossas vidas, mas suas vidas nunca deixam as pessoas.
(500) Dias com Ela (EUA)
Lembra aquela música do Tim Maia que dizia “paixão antiga sempre mexe com a gente”? Pois tão verdadeira quanto essa frase é a trama desta produção independente que aportou aqui primeiramente no Festival do Rio sendo classificado como a melhor produção indie e bonitinha do ano – um tipo de Amelie Poulain e Brilho Eterno – mas que provou ser completamente único em seu gênero. Na verdade, minha apreciação por esse filme é tão grande que recomendo para qualquer individuo que já teve ou tem um relacionamento em qualquer estágio. O filme é garantia de diversão, risos, boas interpretações e reflexões. E se você não se identificar em nenhum nível com o filme pode ter certeza que você não merece realmente apreciá-lo em toda a sua complexidade.
RESENHA: Finalmente um românce de verdade
Avatar (EUA)
Este é o tipo de filme que está em outro nível de classificação. Muita gente vai torcer o nariz, mas independente do visual e da tecnologia que o filme engloba, a trama do novo filme de James Cameron é envolvente, redonda e convincente. Pode não inovar em matéria de originalidade, mas é muito bem estruturada e clara. Os efeitos colaterais da magnitude de um filme como ele já podem ser vistos: filmes com atores em 3D (graças a uma câmera inventada pela Sony à pedido do diretor), um avanço na técnica de captura de movimentos e a certeza que a magia do cinema só se restringe à imaginação de seus criadores. Assim como os grandes DeMille, Kubrick e Griffits, Cameron é um visionário que será estudado por gerações futuras. Você tem a chance de dizer à eles que fez parte desse salto tecnológico conferindo o maravilhoso trabalho do diretor nos cinemas, afinal de contas, não tem melhor lugar para apreciar uma produção dessa escala.
RESENHA: A nova era do cinema
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