quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A guerra que você não viu.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker), de Kathryn Bigelow. Com Jeremy Renner, David Morse, Anthony Mackie e Evangeline Lilly

Estréia dia 5 de fevereiro nos cinemas, mas procure em sua locadora.

Talvez você esteja se perguntando que diabos de filme é esse que você provavelmente nunca ouviu falar. Não se sinta culpado. Guerra ao Terror nunca chegou a ser divulgado no Brasil nem mesmo em um simples trailer no cinema que fosse. Por aqui, ele chegou direto na locadora de onde não atraiu muito a atenção dos cinéfilos brasileiros. Não é à toa! A princípio o filme pode parecer como mais uma dessas produções de recrutamento ou o oposto da guerra do Iraque. Mas não se deixe enganar pelo título dúbio. O filme não é uma produção pro ou contra qualquer guerra em si. Aliás, eu diria que em raros momentos é um filme de guerra embora se passe 95% de sua duração dentro de uma.


A prova disso é o fato que o filme – lançado no começo do ano – já vem sendo sondado como uma das possíveis surpresas do próximo Oscar, e traz na bagagem ter sido eleito pela associação de críticos de Nova York como melhor filme do ano, ter vencido 5 festivais mundo afora, alem das 3 indicações para os Globos de Ouro.


Muitas dessas premiações e elogios são diretamente ligados ao trabalho de direção de Kathryn Bigelow, uma espécie de “psicanalista da adrenalina”. A diretora sempre foi viciada em suas causas e as alterações que a busca pelo perigo proporciona em um ser humano. Do maravilhoso Caçadores de Emoção ao propositalmente tedioso K-19:The Widowmaker, seu estudo chega ao auge nesta história de um desarmador de bombas do Iraque que só se sente em paz no mesmo lugar onde ninguém gostaria de pisar.


Na verdade não existe muito o que se falar da trama do filme alem da linha acima. O filme não segue a linha narrativa que estamos acostumados, mas sim, expõe uma analise documentada dos últimos dias de três soldados antes de retornarem aos seus lares nos EUA. Seus medos, suas descobertas e agonias. Principalmente a maneira como cada um vê a morte se aproximando enquanto lutam para enganá-la em cada esquina. Por isso o filme é contado como se fossem diversas situações – diversos curtas até – até moldarmos a personalidade dos personagens e percebermos que um deles, o sargento William James (Renner) luta contra o tédio procurando insistentemente a ação. Mesmo colocando a vida dos amigos em jogo.


Quando eu vi Renner em filmes de ação como SWAT ou Extermínio 2, não poderia ter idéia de como ele é realmente um bom ator, e o mesmo posso dizer do ator Anthony Mackie, mesmo que ele tenha tido um desempenho agradável embora discreto em Menina de Ouro e Controle Absoluto. Curioso é ver atores do calibre de Guy Pearce, Ralph Finnes, Evangeline Lilly e David Morse fazendo papeis extremamente divertidos e diferentes de tudo que fizeram antes, mesmo que por tão pouco tempo em tela. Principalmente Morse – esse estupendo ator – que infelizmente tem poucas oportunidades de mostrar seu talento em tela grande, e que no filme, em apenas duas cenas, vive o imprevisível Coronel Reed com grandeza, dando à ele uma personalidade capaz de amedrontar inimigos e aliados com um simples olhar – e sorriso também.

Para que você não seja pego de surpresa, esteja preparado. Guerra ao Terror é um filme independente e provavelmente sem força de ganhar algum prêmio grande, visto que geralmente os que ganham são aqueles que têm dinheiro de se vender mais. Ainda assim, o filme é uma interessante analise sobre um tema muito raro de se ver no cinema. Se o filme não tem chances, talvez sua diretora possa comemorar as suas. Alem de ser a primeira em anos a ser indicada, eu diria que ela é a favorita de muitos para sair do Kodak Theater com uma estatueta nas mãos. Algo merecido para alguém que provavelmente é uma das melhores diretoras de filmes de ação (juntamente com Paul Greengrass) do cinema atual. Olho neles. Podem ser as grandes surpresas do ano em que quase passaram despercebidos.


Detalhe: As distribuidoras nacionais, desesperadas para vender o filme aqui, já que não fizeram questão nenhuma de exibi-lo nos cinemas e o jogaram nas locadoras, anunciaram sua tardia estréia na tela grande recentemente. É a prova de que filme bom também passa despercebido pelo publico em geral as vezes. Eu mesmo vi o filme há quase um ano e meio atrás, antes de todas as suas premiações e quase não percebi a profundidade de seu tema até pouco tempo, quando o assisti de novo. Definitivamente, é um filme de ação absolutamente original e alternativo.


FILME IRMÃO MAIS VELHO: Três Reis (1999), de David O. Russell. O diretor caiu no ostracismo, mas o filme que tinha cara de uma coisa se revelou outra e surpreendeu pela humanidade de seus personagens que nunca falam como soldados, mas sim, como pais, filhos, ou amigos. É um daqueles filmes sem gênero, com um senso de humor sarcástico e final corajoso. E de quebra tem a famosa cena da bala entrando no corpo humano visto do lado de dentro. Genial!


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