O Fim da Escuridão (Edge of Darkness), de Martin Campbell. Com Mel Gibson, Ray Winstone, David Aron Baker e Danny Huston.
Se você for ver o novo filme de Mel Gibson, depois de 5 anos sem aparecer na frente das câmeras, achando que vai ver Martin Riggs – o retorno vai se desapontar. Apesar de ser dirigido pelo mesmo sujeito que reinventou James Bond e Zorro, maneirando na violência, e pelo mesmo sujeito que escreveu Os Infiltrados e Rede de Mentiras, e abusou da mesma nestes filmes, este aqui tem muita conversa durante suas duas horas de projeção e poucas, mas pontuais cenas de ação, que abandonam a violência estilosa do tipo 300 para abraçar uma nova e realista visão. A mistura lembra um pouco o bom e velho Tarantino do começo de carreira e por isso é uma grata surpresa.
Talvez seja um exagero comparar essa produção aos grandes clássicos do cinema, mas O Fim da Escuridão é sem duvida um dos melhores filmes dentro de seu gênero. Um gênero, alias, pouco visto no cinema hoje em dia, mas muito popular na década de 70, que rendeu (ai sim) clássicos espetaculares como Os Três dias do Condor e Todos os homens do Presidente. Filmes investigativos sobre conspirações que eram tão bem realizados por diretores como Alan J. Pakula e Sydney Pollack e que de tão inteligentes desafiavam seus expectadores a ficar um passo na frente para compreender o que o mocinho nem sempre poderia.
Gibson vive Thomas Craven um ex-militar e detetive aposentado que finalmente vai reencontrar a filha depois de anos vivendo sozinho, algo que ele parece muito acostumado. Não demora muito e sua filha demonstra estar doente o que a leva a ser assassinada na porta de casa (por mais que você espere que isso aconteça, confie em mim, nada vai te preparar para como e quando a cena acontece). A polícia começa a achar que os assassinos tinham em mente matar o detetive e não sua filha, por isso começam a investigar as pessoas erradas. Não demora muito para percebermos que a filha de Craven fazia parte de uma conspiração que envolve a companhia nuclear onde trabalhava e um acordo para a fabricação de armamentos ilegais (uma baita trama, diga-se de passagem).
O filme ganha ainda mais tensão quando entra em cena o personagem de Ray Winstone, conhecido simplesmente como Jedburgh, brilhantemente defendida pelo ator, que é tão complexa que dariam algumas milhares de linhas descrevê-lo. Os mais atentos vão perceber os detalhes que fazem desse sujeito uma figura chave na trama e que de tão interessante, poderia fazer parte de outros filmes do mesmo gênero (que se dane, ele poderia ganhar um filme solo que eu iria ver).
Então quando Craven o agradece por não matá-lo, mostra que mesmo sem conhecer o sujeito, ele claramente seria capaz de fazê-lo. Em outro momento brilhante, ele pergunta a seus empregadores do governo se eles realmente desejam que ele assuma essa missão, quase como se dissesse “tem certeza que quer trazer uma bazuca para essa guerra de espadas?”. Provido de uma moral incorruptível e das melhores frases do filme, fico me perguntando por que Robert DeNiro teria desistido de viver esse que poderia ser um dos seus papeis mais marcantes dos últimos anos.
Danny Huston vive o mesmo personagem que já fez em outras dezenas de filmes, então quando finalmente entra em cena depois de quase meia hora, mesmo usando um discurso pacifico e eloquente, já sabemos quem é o verdadeiro vilão por trás da história toda. Ainda assim, o filme consegue fugir dos clichês clássicos do gênero e renovar outros. Só assim para o terceiro ato começar com uma cena de tiroteio na casa do vilão que é simplesmente de prender a respiração. E embora a cena final seja extremamente piegas não chega a comprometer um filme com o carimbo-Cypreste de “diversão inteligente”.
E quem se encontrar boiando no meio do filme por não ter entendido tanto bla, bla, bla, não se preocupe: em uma cena Gibson obtém praticamente todas as respostas de um vídeo feito por sua filha e a coisa não parece nem um pouco um Deus ex machina. E se ainda assim você não gostar do que está vendo, eu te garanto que uma cena de atropelamento (que pode ser parcialmente vista no trailer) já vale o filme. Alias, a cena é a mais perfeita que já vi em toda a historia da sétima arte. Tão séria que não me surpreenderia se a pessoa atropelada não tiver sido avisada pela produção e estiver hospitalizada até hoje.
Mostrando o talento e os trejeitos clássicos de seus marcantes personagens do passado, Gibson comprova que é um dos mais carismáticos atores de Hollywood. Eu sou da época em que qualquer coisa que tivesse o ator já valia o ingresso – e nisso eu incluo até os questionáveis Um dia, dois pais e Do que as mulheres gostam. E se houver uma frase que descrevesse com precisão o “estilo Mel Gibson” de conduzir uma carreira, ela só pode ser a resposta que dá a um amigo que tenta lhe convencer de que está sendo perseguido por homens perigosos: “E o que sou eu?”.
De gelar a espinha.
Filme perseguidor implacável:
Desejo de Matar (1974), de Michael Winner. Lembro-me até da frase que se lia nos cartazes: Eles mataram sua mulher e estupraram sua filha. Agora vão desejar já estarem mortos. Como Mel está cada vez mais assumindo o seu lado sucessor de Charles Bronson, nada melhor do que relembrar deste que é um dos melhores “filmes de vingança”, baseado num excelente livro de Brian Garfield que pude apreciar quando escrevia o roteiro de Cão de Guarda. Uma refilmagem está sendo programada para 2011. Ah, não é filme pornô com o Mauricio Mattar, não. Podem ficar tranquilos.


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