quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O principio da incerteza

Um Homem Sério (A Serious Man), de Joel Coen. Com Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed e George Wyner

Estréia dia 19 de fevereiro.


Quanto mais velho eu fico mais começo a questionar coisas sobre a vida que planejava ter. Sempre imaginei casar aos 25 e ter meu primeiro filho aos 28. Hoje, com essa mesma idade não tenho idéia se ainda tenho coragem para querer casar. Questiono o casamento, questiono a igreja, mas nunca questionei a vida em família – este sim o bem mais precioso que uma pessoa pode ter. Ultimamente, por fatos pessoais que tive vivencia, tenho começado a pensar se a religião não é simplesmente um código de conduta, um hobbie que nos transforma em pessoas mais pacificas e menos questionadoras. “Ora, Deus quis assim”, era o que minha mãe me dizia quando eu perguntava a razão de algumas calamidades quando pequeno.


Você deve estar se questionando se essa ainda é uma resenha sobre um filme, e eu diria que nada mais cinematográfico do que o próprio questionamento. Se escrevo aqui regularmente e me satisfaço com isso (apesar do baixo salário que o dono do blog me paga), é exatamente por que o cinema é tão transgressor e reflexivo que funciona pra mim como a religião ou a família funciona para outros. Por que sou assim? O que fiz de errado? Como posso resolver meus problemas? Porque ela gosta mais daquele cara do que de mim? Uns oram, outros se aconselham. Eu, não sempre mas frequentemente, encontro minhas respostas nos filmes. E exatamente por isso que ninguém deve se ofender pelas palavras que lerão aqui, afinal de contas nada sei e ninguém sou capaz de julgar nesse mundo tão inexplicavelmente desconexo (e prometo que estou escrevendo essa resenha sóbrio e livre de narcóticos).


Sabe aquele sujeito do bem que não machucaria nem uma mosca? Esse é Larry (Stuhlbarg). Mas por algum motivo parece que todo o mundo a sua volta está ruindo. Sua mulher deseja o divorcio porque se apaixonou por um amigo do casal, e como conseqüência, quer que ele se mude de casa. No trabalho, ele vem sendo chantageado por um aluno coreano que ficou reprovado em sua matéria. Seu filho vive metido em encrencas no colégio judaico, seu irmão está escrevendo um livro totalmente fora da realidade enquanto mora de favor em sua casa, e seu estranho vizinho parece procurar motivos para brigar com qualquer um que discorde de si. Diante de tantos problemas, ele decide se aconselhar com o Rabino para ajeitar sua vida, mas não consegue obter respostas diretas.


Uma pena um filme tão diferente ter sido tão ignorado em seu país de origem (e o mesmo vai acontecer por aqui também), mesmo que seus criadores sejam os premiados e talentosíssimos irmãos Coen. Talvez a falta de um rosto famoso tenha comprometido o marketing da produção, ou talvez seu tema ousado tenha afastado o público (e tenho certeza que assim como em Onde os Fracos não têm vez serei o único a gostar desse filme), mas o fato é que se analisado apropriadamente, como todo filme dos Coen pede, ou seja, em seu subtexto, está produção é profundamente existencialista e reflexiva. Como alias há muito tempo o cinema não conseguia ser, afinal de contas vamos para as salas escuras para esquecermos da vida, e muito raramente saímos de uma sessão olhando para o nosso próprio umbigo.


A grande questão é mais que religiosa (como coloquei no começo da resenha), e embora seja levantada por um filme sobre a comunidade judaica é uma pergunta universal: afinal de contas por que Deus nós faz questionarmos os nossos problemas se não nos dá as respostas para podermos tirar uma conclusão, uma moral que seja? Alguns problemas nunca são realmente resolvidos, são esquecidos, ignorados. Onde então isso se encaixa na nossa existência? Como isso nos faz crescer como seres humanos? Que sentido existe e o que devemos aprender quando estamos numa situação adversa?

A verdade, que nem o próprio Rabino sabe responder, e se é que ela existe, é que simplesmente talvez não haja razão. Se abordamos o assunto “existência” do ponto de vista evolutivo, vamos concluir que nossas vidas estão longe de ser um filme que ao chegar no final nos agraciará com uma moral inspiradora. Muitas pessoas nascem, vivem e morrem, e só. Não transformam nada, não inventam cura de nada, não plantam uma árvore e nem escrevem um livro. Talvez a resposta que procuramos quando nos perguntamos por que pessoas inocentes morrem todos os dias e as más continuam ai seja mais simples do que pensamos. Por que talvez não tenha um por quê.


Muitos vão dizer que é a vontade de um Deus, que existe um plano definido para todos nós. Mas e se não houver? Sua vida será melhor ou pior sabendo disso? A vida em sociedade nos diz que devemos crescer, nos educar, criar uma família e passar nossos aprendizados de geração para geração, mas pense bem: isso é um principio muito mais evolutivo do que religioso (O ser humano precisa procriar e viver em paz para coexistir). Embora nossas igrejas e sinagogas (ou o que for) instituam o casamento, é meramente um paradigma social acreditar que todo ser humano precisa do mesmo para ser feliz. No caso de Larry, a felicidade não se encontra na família, no trabalho e muito menos em suas realizações pessoais, por mais generoso e bom que ele tenha sido a sua vida inteira. Então por que ele está sendo punido desse jeito? Por que continua buscando uma explicação para tudo?


Afinal de contas, onde está escrito que levar uma vida digna é garantia de alguma coisa? Quem disse que você vai para o céu ou para o inferno? Quem decide isso? Evoluímos porque nos tornamos seres pensantes e pensamos porque nos tornamos seres questionadores. Mas quem disse que a vida é para ser entendida e que toda pergunta precisa de uma resposta? E se alguém tiver essa resposta talvez nem tenha mais espaço para ser ouvido no mundo que vivemos atualmente, o que me leva a crer que é mais uma questão que provavelmente ficará no ar, também esperando uma resposta.


Que grande e inexplicavelmente ignorado filme. E que atuações espetaculares de Michael Stuhlbarg e George Wyner.


FILME “AMIGO DOIDÃO”: Donnie Darko (2001), de Richard Kelly. Quem lê muito esse blog sabe que volta e meia eu falo um pouco deste filme que para mim é “o” filme para se falar durante horas e horas, assim como este novo dos irmãos Coen. Com uma trama alucinante e frases marcantes, a produção se tornou cult no mundo inteiro e ainda levantou uma questão filosófica que pontua uma das melhores cenas do filme: será que toda criatura deste planeta morre sozinha?



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