Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones), de Peter Jackson. Com Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Saoirse Ronan e Stanley Tucci
Estréia 19 de fevereiro
Lembra do Peter Jackson? Não? O sujeito que dirigiu a trilogia O Senhor dos Anéis, e pelo terceiro filme levou o merecidíssimo Oscar pelo conjunto da obra, algo que o Oscar faz muito bem: dar o premio pelos anos que o cara mereceu e não levou. Depois disso o ex-gordinho resolveu filmar sua produção favorita e nos presenteou com o excelente King Kong, uma releitura moderna do clássico filme de 1933. Isso foi, acredite ou não há 5 anos atrás.
Desde então o diretor buscava realizar um projeto que pudesse seguir aos seus estrondosos sucessos de bilheteria e crítica de acordo. Com a faca e o queijo na mão, com moral de escolher qualquer projeto que quisesse, ele optou por adaptar para as telas o livro de Alice Sebold sobre uma menina que descreve como foi a sua vida depois de ser assassinada. Uma atitude ousada mas extremamente calculada se lembrarmos que foi ele que dirigiu o tocante Almas Gêmeas quando todos o consideravam “diretor de filmes trash”.
Considerado mais um livro “infilmável” (especialidade de Jackson), a trama não começa exatamente pelo assassinato em si e o final é ligeiramente diferente da obra escrita também. Quando conhecemos a família Salmon nos anos 70, descobrimos que eles não são a família perfeita e muito menos vivem no melhor lugar do mundo, mas possuem problemas de acordo com suas realidades. A jovem Susie, por exemplo, vive a expectativa de ir ao baile do colégio com o menino que é apaixonado (o clone do Ruby dos Menudos). Sua irmã se tornou uma obcecada pela forma física, o que a faz entrar num grupo de jogging do colégio. A mãe (Weisz) é uma neurótica controlada que segura as pontas graças ao tranquilo e paciente marido (Wahlberg). A única pessoa que parece vinda de outro planeta é a sobre, vivida brilhantemente como sempre por Susan Sarandon (suas cenas seguram boa parte das tragédias que se seguem).
É com muita calma e sem apelar para nenhum efeito mirabolante que o diretor constrói uma relação entre o expectador e a família da telona. Mostrando um amadurecimento emocional para abordar um tema tão pesado de uma maneira que nunca conseguiu fazer (afinal faltou ao diretor uma abordagem mais séria em O Senhor dos Anéis, o que abriu brechas para interpretações homossexuais de alguns personagens, o que não é errado, mas também não era o caso do filme).
Depois de um primeiro ato longo mas necessário, a menina morre e não sabemos o motivo ou mesmo como até o final do segundo ato, quando algumas revelações sobre o assassino são feitas e o filme começa a dizer a que veio. Isso porque Jackson não precisava perder tanto tempo em algumas cenas – como a descoberta que Susie faz depois de morrer que pode mudar o seu mundo, e que mais parece um comercial de batom infantil – ao mesmo tempo em que deixa apenas no ar os motivos que levam a mãe à abandonar a família para trabalhar numa plantação.
É uma produção adulta e muito tensa, qualidades que precisam ser divididas por duas pessoas em especial: Jackson que constrói movimentos e quadros com suas câmeras que beiram o espetacular. Seus filmes por si só, independente dos efeitos especiais (que neste caso nem são tão inovadores assim) são um deleito visual. O outro chama-se Stanley Tutti, o assassino. Eu teria que falar horas sobre como seu vilão é humano e verdadeiro. O ator que já tinha dado um banho de interpretação em Julie & Julia prova que merece mais do que papeis coadjuvantes no futuro, e senão fosse Christoph Waltz estar disputando consigo o Oscar, tenho certeza que levaria a estatueta pelo conjunto da obra.
Para aqueles que forem esperando um filme parecido com os últimos do diretor, acreditem, vão sair desapontados. Mas se forem de coração aberto, preparem-se para assistir um carrossel de emoções num filme que oscila entre o drama, romance e suspense, sendo sempre brilhante em todos os gêneros. Mesmo quem não conheça ou goste de seus trabalhos anteriores deveria dar uma olhada nesse filme. Principalmente na questão que permeia a produção e diz bastante sobre os monstros que existem dentro de cada um de nós: você preferiria ver a justiça ser feita, ou a sua família feliz e unida novamente? Em outras palavras, você tem amor ou ódio incrustado em seus ossos?



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