Nine (idem), de Rob Marshall. Com Daniel Day-Lewis, Judy Dench, Marion Cotillard, Nicole Kidman e Penelope Cruz.
Em cartaz
Primeiramente, o novo filme de Rob Marshall não é nem de perto esse horror que estão dizendo por ai. Isto dito por uma pessoa que simplesmente odeia musicais deve te dar uma dimensão melhor da coisa. A nova produção que mistura diversas referencias em um gênero ainda agonizante é extremamente bem filmado, e alguns planos são realmente magistrais, o que prova que o diretor, embora tenha poucos filmes no currículo, é realmente um sujeito de talento – o que deve provar em seu novo filme, o quarto da franquia Piratas do Caribe.
O filme conta a história do consagrado diretor italiano Guido Contini (Day-Lewis) que atualmente sobre de um bloqueio artístico em plena véspera do anuncio do seu mais novo projeto, o épico Itália, que também contará com sua estrela-assinatura Cláudia Nardi (Kidman). Enquanto sobre para encontrar o tema do filme, ele hora é auxiliado por algumas conselheiras (a figurinista, a prostituta da infância e a própria mãe), hora é atazanado por outras (a mulher, a amante mala e a reporte insinuante). E adivinha o que acontece no final?
Há algumas incongruências na trama que pessoalmente me confundem. Por exemplo, o cara é casado com a Marion Cotillard, sua musa dos filmes é a Nicole Kidman, e a repórter que mais lhe dá mole é a Kate Hudson, mas ainda assim, o sujeito prefere trair seu casamento com a Penélope Cruz? Pra começo de conversa, se eu fosse diretor de cinema casado com Cotillard, eu me aposentava na lua de mel só pra passar mais tempo em casa vendo ela cozinhando, limpado o banheiro, e coisa do tipo. Penélope Cruz? Tá falando sério? Acho que forçaram tanto a barra pra mostrar ela como gostosona que exageraram (a moça não aparece em nenhuma cena sem mostrar as pernas).
Nine não refere-se somente ao numero de mulheres que assombra a cabeça do diretor (até porque não são realmente nove mulheres). O número refere-se a uma espécie de releitura do filme 8 e meio de Frederico Fellini, onde um cineasta também é assombrado por mulheres (muito mais tresloucadas que a deste aqui) enquanto tenta escrever seu próximo filme. Há inúmeras referencias ao filme de Fellini: desde o nome de alguns personagens, passando pelo desenho de uma mulher peituda (cena clássica do filme do italiano), até a fotografia em preto e branco da praia, onde Fergie está a cara da Sophia Loren – o que contrasta um pouco com a mesma coreografia que é mostrada num placo de teatro (sempre, embora o sujeito seja diretor de cinema), onde ela lembra mais o vocalista do Twisted Sisters. Mas visto que a maioria das pessoas que verão o filme de Marshall nunca viram um filme de Fellini que fosse, não existe nenhuma referencia direta que atice a curiosidade da platéia em revisitar a obra. Alias, comparar 8 e meio com este filme é um grande absurdo visto que são dois gêneros completamente diferentes.
Falando em Fergie, nem precisa dizer que de todos os videoclips (sim, porque é isso que todo musical é na verdade), de todos os rostos famosos e de todas as vozes e danças, é ela que tem a melhor música, tom e gingado. Claro, esse é o trabalho dela. Deveria enaltecer seu talento como atriz que obviamente é questionável aqui. Mas das muitas mulheres que dão as caras no filme a que realmente me surpreendeu foi Hudson em uma cena extremamente bem fotografada. Alem da voz a moça ainda mostra que sabe dançar, e o clip consegue passar o frescor num momento em que a produção poderia cair no piegas.
Ainda assim, não é difícil perceber porque a crítica e o publico em geral não gostaram do filme. Com um clima extremamente europeu que influencia em sua condução, a produção pode ter soado falsa e cansativa demais para a audiência norte-americana. E o pior é que onde eles (os críticos) concordam e enaltecem, eu não o faço. Não consigo compreender a indicação de Penelope Cruz para um Oscar de coadjuvante por esse filme. Fui um dos que mais elogiou a moça ano passado e acho que ela mereceu o Oscar que levou, mas esse ano forçaram a barra assim como forçaram com Vera Farmiga. Nenhuma das duas teve atuação para merecerem um prêmio, o que só comprova o baixo nível das interpretações (femininas e masculinas) associado às péssimas escolhas dos entendidos que votam nessas premiações (querem saber duas outras atuações que mereciam ser lembradas e não foram? Zoe Saldanha em Avatar e Cotillard em Inimigos Públicos).
O texto em si não é lá essas coisas o que surpreende visto que foi escrito pelo falecido Anthony Minguela (O Paciente Inglês, Cold Mountain) que volta e meia aparece com frases que beiram o obvio como “o filme não era o seu problema, você era”. Daniel Day Lewis é um ator acima de qualquer outro de sua geração e por isso faz o que pode com essas frases e cenas que envergonham só de olhar. Mas lembram-se o que eu disse lá no começo da resenha? Não gosto de musicais. São surreais demais pra mim, mas não para outros. Talvez você seja esse outro.
Sem duvida há qualidades suficientes que mereçam uma olhada com cuidado para os fãs do gênero. As mulheres vão se apaixonar pelo glamour e as cores e os homens pelas belas pernas de atrizes talentosas. Não é um filme que mereça entrar na briga por qualquer estatueta, nisso eu e a Academia concordamos. Mas não preciso ser aficionado pelo gênero para saber quando um filme tem ritmo e beleza. E daí que grande parte é só isso mesmo? Se você sair do cinema cantarolando uma música que seja, não terá valido a pena?

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