Preciosa – uma historia de esperança (Precious), Lee Daniels. Com Gabourey Sidibe, Mo´Nique, Paula Patton, Mariah Carey e Lenny Kravitz
Em cartaz.
Prestem muita atenção no que eu vou dizer agora: Dispa-se de todo pré-conceito que você tenha ou de tudo que tenha ouvido de ruim ou bom sobre esse filme. Preciosa é simplesmente um dos filmes mais realistas, chocantes e verdadeiros que já vi em toda a minha vida como amante da sétima arte. Amei Avatar, e todos os outros filmes apontados como grandes concorrentes em premiações deste ano, mas, ao contrário do ano passado, onde o filme de Boyle estava um degrau acima, esse ano vai ser complicado escolher. E por mais que todos sejam excelentes filmes, este aqui é talvez o mais humano e emotivo de todos. E talvez o que melhor traduza a palavra “Melhor FILME” – visto que se Avatar ganhar o premio principal do Oscar vai ser mais por “conjunto da obra” do que por suas qualidades individuais.
Preciosa é a história verdadeira de Claireece Precious Jones (Sidibe), uma obesa jovem de 16 anos, mãe de um filho com síndrome de Down, chamado de Mongo(lóide) pela família, fruto de um estupro de seu próprio pai. Enquanto vai a escola e tenta mudar de vida, esbarra em barreiras sociais que ultrapassam a pobreza. A jovem não é só gorda. Ela é negra, pobre, menor de idade e mãe. Isso faz com que não tenha amigos e só se comunique através da violência, herança do brutal aprendizado de sua mãe, Mary (Mo´Nique, guarde esse nome).
O interessante é que para suavizar e até construir momentos de humor, o diretor Lee Daniels (excelente revelação) transforma cada momento de dor e desespero da personagem em uma fuga para um mundo melhor onde ela é uma estrela da musica ou atriz glamorosa. Repare como a excelente edição sempre nos coloca dentro da cabeça da menina, sendo escutando seus pensamentos – trechos retirados do livro em que o filme se baseia -, ou assistindo aos próprios sonhos de grandeza e fama onde ela se abriga para não encarar a realidade. Isso prova como, com pouco dinheiro e muito talento, um livro pode ser adaptado com qualidade.
Posso dizer com toda segurança que nunca o cinema americano realizou um filme como esse, em que um elenco feminino segure as pontas por duas horas com louvores. Alias, essa frase não é o suficiente. Em que um elenco negro feminino segure o filme com excelência! Não vejo um trabalho tão uniforme e brilhante de um elenco feminino assim há anos (talvez desde Tudo por minha mãe). A única coisa que me incomoda um pouco é esse alarde todo em volta de uma atuação simples e contida de Mariah Carey, que aparece em poucas duas cenas (e com a peruca do Playmobl). Muito melhor está Paula Patton (cada vez mais igual à jovem Whitney Huston), como a professora que tenta resgatar a jovem do ostracismo.
Mas nada se compara a um trabalho de atuação como o de Mo´Nique. Nenhum ator durante todos esses meses pode ser comparado ao que essa mulher fez neste filme (principalmente na cena final). Ela é a barbada das premiações, o Heath Ledger de 2010! Merece todos os prêmios que derem e ainda vão ficar devendo. Lembro de tê-la visto no horroroso Dominó – a Caçadora de Recompensas, mas nada pode ser comparado a essa atuação aqui. Toda vez que a mãe de Precious entra em cena, você tem certeza que vai se emocionar. Seja pela revolta ou pelo ódio. A atriz transformou o papel no trabalho de sua vida (espero que não, obviamente) e criou em sua Mary, talvez, o maior vilão do cinema deste ano. Não há palavras suficientes para descrevê-la. Se a Academia não der a estatueta para essa mulher esse ano, te juro que eles não merecerão mais serem intitulados como "A maior premiação do mundo", e prometo nunca mais dedicar uma linha sequer para me referir à eles.
E vou começar por agora! Que se dane a academia, que se dane Hollywood, e que se dane quem quiser ignorar esta AULA de cinema. Preciosa é mais que um filme. É uma memória para todo o sempre. Uma cicatriz social. A verdade que nós mesmos nos recusamos a ver e que pintamos com cores bonitinhas para disfarçar nosso desprezo (assim como a própria personagem). É um filme de verdade, sobre pessoas de verdade, e que nos relembra que numa sociedade onde tudo é copiado e enlatado, ainda existe espaço para um cinema DE VERDADE! E um filme assim não precisa de prêmio nenhum para nos lembrar como é extraordinário.
E precioso.


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