A Caixa (The Box), de Richard Kelly. Com Cameron Diaz, James Marsden, Norman Osbourne e Frank Langella.
Estréia sexta dia 26
A primeira reação de muitas pessoas quando deixarem o cinema no meio ou ao fim deste filme será dizer que ele não presta, e que foi a pior coisa que viram nos últimos anos, mas existem diversas analises que devem ser feitas sobre este trabalho do mesmo diretor de Donnie Darko. Assim como no filme de 2001, existem diversas similaridades na trama e na maneira que ele escolheu para conduzir sua ficção cientifica. Em todos os seus três filmes até agora (incluindo o sonolento Southland Tales), o trabalho dos atores é um ponto alto para manter as histórias sempre fantasiosas com o pé no chão. Afinal de contas, se você começasse a assistir um filme onde caixas matam pessoas e homens desfigurados voltam dos mortos, sem acreditar que a emoção dos personagens é verdadeira, existe uma grande chance de você levar toda aquela explicação para o ridículo.
A produção narra a história do casal Norma e Arthur (Diaz e Marsden, finalmente num papel interessante), que antes mesmo dos créditos iniciais, recebe uma misteriosa caixa na porta de sua casa. No dia seguinte, eles conhecem o desfigurado Arlington Steward, que lhes explica que ao apertarem o botão, alguém que eles não conhecem morrerá e o casal receberá um milhão de dólares de recompensa. Tentando deixar o filho fora do mistério, o casal começa a investigar de maneira realista a origem do sujeito que lhes fez tal proposta – é exatamente ai que a coisa degringola um pouco e se torna bem caricata, mesmo que o diretor consiga manter a platéia intrigada com as pistas que vai revelando, uma atrás da outra.
Assim como eu disse no começo de minha resenha, é preciso muito cuidado para analisar os trabalhos de Kelly, principalmente este aqui. Quando vi Donnie Darko pela primeira vez, tive a noção que não havia entendido o filme completamente mas alguma coisa me fez gostar dele mesmo assim – somente depois que comprei o filme e pude assisti-lo mais umas duas vezes tive certeza de ter entendido algo. Em A Caixa, o sentimento é de cautela para não se analisar o filme de maneira precipitada, o que eu tenho certeza, será feito pela maioria do público que pagar para assisti-lo nas salas de cinema. Se vocês têm algum interesse em se surpreenderem com a produção, mesmo que eu não vá revelar nada, eu sugiro que não leiam as próximas linhas dessa resenha.
A grande razão da caixa não é exatamente ganhar ou não o dinheiro, mas obviamente, um teste de caráter para se descobrir se somos ou não um povo digno e de compaixão mesmo para um estranho. Não estou falando isso para mostrar a vocês, como fazem alguns críticos, que eu fui capaz de entender o filme enquanto muitos vão gritar nas salas escuras que não estão entendendo nada. Estou falando isso para que vocês se perguntem as coisas certas e evitem se desapontarem com um filme que talvez não mereça as críticas ruins que com certeza receberá.
A pergunta que o expectador deve se fazer não é exatamente quem está fazendo isso? (ou quem são os empregadores do Sr. Steward?) A real pergunta é “se você tivesse o poder de Deus, diria que vale a pena salvar a raça humana?”, a única que mata um ser da própria espécie sem motivo aparente. Kelly ainda abre espaço para analisarmos de outro ponto de vista, o do casal, como suas atitudes, por mais egoístas que sejam, afetam o mundo ao seu redor. É nessa vertente que se torna interessante analisar a relação do filme com o texto Entre Quatro Paredes, de Sartre (frequentemente citado na trama), que para admiradores do intelectual francês, será um deleite ainda maior encontrar pedaços das idéias existencialistas do escritor (tive a oportunidade de lê-lo enquanto escrevia o roteiro de El Paso, e posso garantir que ajuda a compreender melhor o filme aqueles que souberem o conteúdo da peça).
O mais fácil para mim seria chegar aqui e dizer que o filme não presta e não faz sentido algum, como vocês vão ler em alguns lugares. Seria muito fácil eu esbravejar palavrões ao sair da sala de cinema revoltado com o que acabei de ver, como vocês também verão em alguns lugares. Mas existe mais sobre A Caixa que eu possa revelar em um simples texto. Está longe de ser um filme fácil, mas Kelly finalmente me mostrou que tipo de cineasta ele pretende ser: aquele que quer mostrar ao mundo que filmes de ficção cientifica são reflexos sérios de nossas sociedades atuais. Não somente razões extras para assistirmos mais tiroteios e explosões (Não é a toa que algumas tomadas lembram bastante os mestres desse gênero como Carpenter e Kubrick).
E se isso não for razão suficiente para você dar uma chance de ver esse filme, então vá pelo menos pela excelente explicação de Steward quando questionado qual a razão de ter escolhido uma caixa para representar seu plano: “Você mora numa caixa, dirige uma caixa sobre rodas, vai para casa para olhar através de outra caixa e no final passa o resto da eternidade se decompondo dentro de outra caixa”. Este é exatamente o “senso de humor bizarro” que o personagem se refere ao falar de seus empregadores. E não é realmente irônico que a natureza (ou Deus) nos dê a vida e ela mesma que nós tire?


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