segunda-feira, 15 de março de 2010

Buraco do esquecimento

O Abismo do Medo: parte 2 (The Descent: part 2), de Jon Harris. Com Shauna Macdonald, Natalie Jackson Mendoza e Krysten Cummings

Estréia sem data definida.

Dirigido em 2005 pelo britânico Neil Marshall, O Abismo do Medo ganhou imediatamente o status de clássico moderno do terror. O filme tinha todos os elementos capazes de gelar a espinha dos mais contidos expectadores. De todas elas a minha favorita foi a claustrofobia que a produção causava ao trocar em poucos minutos os lindos e abertos campos da Inglaterra por uma minúscula caverna, que até hoje me impressiona pela maneira como foi filmado – sinceramente não consigo entender como conseguiram colocar um operador de câmera naquele lugar.


A produção contava a história de Sarah (Macdonald), uma mulher que perdeu marido e filha num acidente automobilístico e é convencida pelas amigas a explorar uma caverna para “distrair a cabeça” (programão, hein!). Juntas, as seis amigas entram no misterioso e inexplorado buraco na terra para descobrirem que criaturas semi-humanas e cegas vivem no local e se alimentam de carne humana. Ai, amigo, como diria o nosso querido Capitão Nascimento, “é um equilíbrio estável que pode ser abalado pela menor das brisas, e neste filme, ventou forte no Babilônia”!


Partindo da premissa que Sarah conseguiu sair do lugar (algo que não fica claro no primeiro filme devido a um final dúbio), a produção tem início dois dias depois de internarem a mulher que de nada lembra. As buscas pelas outras meninas continuam, mas a única pessoa que parece conhecer o local exato do paradeiro delas é Sarah. Logo, ela é forçada pelo xerife local a retornar à caverna, numa espécie de terapia de choque. Junto com eles, três experientes exploradores e uma auxiliar do policial (que se tornará fundamental para a trama) embarcam nessa jornada de final quase obvio. Alias, aqui talvez esteja o grande elemento que me fez adorar essa continuação: ele não é em nenhum momento obvio – o que faz com que você realmente se assuste, não espere as reviravoltas que permeiam a trama, e, principalmente, sinta novamente aquela sensação de claustrofobia – que sejamos sinceros, poucos filmes proporcionam.


O que poderia ser difícil de acontecer para um diretor estreante como Harris, acaba se revelando como outra grata surpresa que alem de respeitar cada detalhe do original, encerra com uma premissa no mínimo curiosa sobre a grande questão que permeia o filme: “de onde surgiram essas criaturas?”. Algumas mortes são simplesmente geniais e, (repito) completamente imprevisíveis, o que me faz ter certeza que não deixará nenhum verdadeiro fã do gênero desapontado.


Eu mesmo tive a (in)felicidade de assistir a produção ao lado de um amigo (que se diz leitor do blog) que não saiu nem um pouco decepcionado. Assim como ele existem vários outros que esperam a vez de ver um bom filme e ter a oportunidade, assim como outro amigo, de gritar boçalidades para aliviar a tensão – no caso da figura em questão a simples e desconexa palavra “estalactite”, que causou uma gargalhada de 5 minutos em quase toda uma sala, fato presenciado por este que vos escreve. Isso sim é diversão que merece estar num cinema. Num ano que começou com o péssimo Premonição 4 e ainda aguarda o também fraco Halloween 2, mas ignora produções de qualidade e rentabilidade garantida lá fora, – estou falando deste filme mas também de REC 2 – as distribuidoras nacionais só provam como são incompetentes e pouco entendem dos filmes que são responsáveis.


A verdade é que os filmes de terror tem presenciado uma baixa nas bilheterias mundiais, quase ao nível dos slashers B que inauguraram o gênero nos anos 80. Mas com a ajuda de engravatados munidos com livros de marketing moderno responsáveis por decidir o que veremos ou não nas salas escuras, e que não sabem nem distinguir uma bomba nacional de um vencedor de 6 Oscars, não temos mesmo como nos animar em ver algum bom filme do gênero voltar a gelar nossas espinhas e nos dar um bom motivo para abraçar a companheira ao lado. Estamos vivendo novos tempos, caros 6 leitores. Onde o ruim chega rápido e com força e o bom envelhece numa caverna escura esperando sua vez de ver a luz do sol. Não se enganem, caros leitores, o verdadeiro Abismo do Medo é o nosso circuito cinematográfico.


0 comentários: