quarta-feira, 31 de março de 2010

Colheita maldita

A Fita Branca (Das Weisse Band), de Michael Haneke. Com um elenco de desconhecidos alemães.

Em cartaz

Alguns filmes foram feitos para sobreviverem fora das salas de cinema através do sentimento impresso em seu público. Isso significa que muitas vezes quando vemos um filme como esta nova produção do excepcional Michael Haneke, podemos não entender redondamente todas as situações que acontecem ou não acontecem numa trama que só poderia ser definida como um documentário em planos estáticos. Mas sem dúvidas, podemos sentir o filme, e é nessa viagem sensorial que está guardado o verdadeiro e temível segredo, assim como um grito de alerta do diretor.


Responsável por produções como Cachê e Violência Gratuita, Haneke parece temer ou no mínimo estar cauteloso com os jovens do mundo de hoje. Enquanto seus filmes tratam de assuntos e tramas que sempre abalam a paz de um certo lugar, suas conclusões nem sempre são satisfatórias, assim como na vida real – o diretor é mestre em encerrar seus filmes em cenas banais e sempre deixar algumas pontas abertas para o publico preencher. Isso já se transformou em debates em diversos programas e até entrevistas exclusivas em que ele mesmo (em alguns raros momentos) se presta a explicar suas visões (disponíveis no YouTube). Então ao comprar um ingresso para assisti-lo, relaxe e se deixe levar, pois o filme tem quase 3 horas de duração onde muito pouco acontece e nenhuma barulheira vai te deixar acordado.


Ainda assim, não seria absurdo nenhum dizer que esta também é uma produção sobre o nascimento de uma nação, ou melhor, de uma nação criada pela violência. À primeira vista, a pequena cidade rural da Alemanha parece um lugar maravilhoso de se viver, onde os jovens e belos habitantes convivem harmoniosamente enquanto tentam criar seus filhos com dignidade e respeito (parece até cidade cenográfica de novela). Dois eventos, porem surgem logo no começo da projeção para abalar as estruturas do local, um acidente de cavalo com o médico da vila e a morte da mulher de um fazendeiro. Embora não tenham nenhuma ligação direta, ambos afetam suas famílias que aprendem um pouco o valor da vida e a falta dela com os outros habitantes (repare a frieza que uma menina explica para o jovem irmão o que é a morte).


Como o acidente pode ter sido causado propositalmente, um clima de suspeita e punição logo paira sobre a cidade. Haneke vai construindo seu ambiente tenso com simbolismos claros e diretos, mas só para quem finalmente entender sobre o que o filme se trata (algo que só acontece no final). Logo no começo a voz em off chama atenção de como essa historia explica um pouco a história deste país, o que vindo de um lugar como a Alemanha já levanta as primeiras suspeitas logo que vemos em seus primeiros minutos que a vila possui uma criança com Síndrome de Dawn. E é isso que os expectadores precisam se ater para não perder os detalhes de um filme aclamado em Cannes, tendo vencido a categoria principal de filme, e grande favorito para o Oscar, embora tenha perdido para o filme argentino.

A tal fita representa a inocência e a pureza, mas as relações entre filhos e país são todas sempre conturbadas. É através do olhar sobre cinco famílias que vemos como as inocentes crianças são reprimidas e duramente mal tratadas (algumas vezes ignoradas) por famílias secas e incapazes de amar. O melhor exemplo do filme talvez esteja na figura do próprio doutor que ao se acidentar causa um sentimento natural de tristeza em seus filhos e na platéia, transformando-se na maior surpresa do filme quando ele finalmente se cura e descobrimos que no fundo é uma figura cruel com sua governanta, ao mesmo tempo, que guarda um sentimento incestuoso pela própria filha.


A figura do Barão, que paga os habitantes por seus trabalhos e é freqüentemente criticado por alguns (uma analogia aos Judeus), a tortura de jovens ignoradas pelos habitantes, a frieza em que um menino joga a irmã num rio e assiste enquanto ela se afoga, e a cena em que uma mulher foge da cidade deixando para trás tudo que tem, percebendo o perigo que a ronda, todas elas cenas chocantes e violentas dentro de seu contexto, mas também conseqüências de uma geração que nada fez para evitar o mal que crescia em suas próprias moradias.


E embora muitos críticos digam que este é um filme sobre a juventude que apoiou o nazismo e causou as maiores atrocidades da historia da humanidade, para mim este filme foca exatamente na geração que os criou. Nos “Vitor Frankensteins” da Alemanha que abandonaram suas condições de pais para se tornarem seres individualistas e arrogantes. O que me faz lembrar aquela maravilhosa frase de Edmund Burke, modificada pelo filme O Senhor das Armas enquanto proferida por Nicholas Cage: “They say, "Evil prevails when good men fail to act." What they ought to say is, "Evil prevails." (Eles dizem, “o mal prevalece quando homens bons deixam de agir.” O que deveriam dizer é “O mal prevalece”).


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