quarta-feira, 17 de março de 2010

A Ilha não quer que você vá.

A Ilha do Medo (Shutter Island), de Martin Scorsese. Com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max von Sydow

Em cartaz

Sinceramente acredito que a crítica brasileira deve estar um pouco desinformada ou desatualizada sobre a carreira do Sr. Martin Scorsese. Dos diversos textos que li sobre este seu novo trabalho, a maioria batia sempre na mesma tecla, “a produção é um exercício de estética, muito bem filmado e atuado, mas completamente vazio e sem moral”. E quem disse que Scorsese faz filmes com lições de morais? Quando foi que ele alguma vez fez isso em toda a sua carreira, alguém me diga, por favor? Este magnífico diretor (responsável por alguns dos melhores filmes que já vi em toda a minha vida) sempre foi genial exatamente por retratar personagens tão bem, e não necessariamente histórias. Se você duvida, procure explicar para alguém como é a trama central de filmes como Os Bons Companheiros, Cassino e Taxi Driver. Provavelmente você vai levar algum tempo, mas com certeza saberia descrever com precisão alguns de seus marcantes personagens ou cenas específicas.


É exatamente disso, e por isso, que Scorsese se dá tão bem com filmes sobre gângsteres – o próprio já confessou ter fascínio por estas figuras –, e é também disso que se trata seu novo filme A Ilha do Medo (tentativa lamentável dos nossos “queridos” distribuidores de associar o novo trabalho à um dos maiores sucessos do diretor, Cabo do Medo). A grande diferença aqui é que este filme não parece exatamente com nada do que o diretor já tenha feito e também pudera. Depois de finalmente levar seu Oscar como diretor e ser homenageado em todas as premiações possíveis, não há nada que ele queira fazer mais do que filmes que ainda não teve a oportunidade. E foi neste roteiro baseado num livro de Denis Lehane (Sobre meninos e lobos) que ele encontrou o seu projeto pós Os Infiltrados.


A produção narra a historia dos detetives Teddy Daniels (DiCaprio) e Chuck Aule (Ruffalo), indicados pelo governo federal para investigar o desaparecimento de uma paciente do sanatório localizado na tal ilha no meio do oceano em Boston. Quando chegam, se deparam com uma tempestade sem precedentes que logo se transforma em furacão e conseqüentemente uma possível fuga de presos – eventos que só fazem atrasar as investigações, mas ajudam a criar a atmosfera que um filme como esse necessita. O problema é que essa é somente a história que eu posso revelar para vocês, pois assim que o filme atinge seu clímax, muita coisa vem a tona e a tal investigação toma um rumo muito mais analítico e pessoal do que o detetive vivido por DiCaprio poderia imaginar.


Sem se preocupar muito em manter a tensão em todas as cenas, ou mesmo assustar a platéia com ruídos ensurdecedores a toda hora, Scorsese foca toda a sua atenção em construir personagens bizarros e perturbados que hora revelam algo importante, e outras vezes só fazem confundir (até o final do filme você pode não ter certeza quais deles são verdadeiros ou frutos da imaginação do perturbado detetive). A atenção aos mínimos personagens arranca de alguns rostos famosos excelentes atuações mesmo que por pouco tempo – como é o caso de Elias Koteas, Patricia Clarkson e Jackie Earle Harley.


Em uma cena em especial, os detetives entram na perigosa ala C onde residem os piores prisioneiros de toda a instituição. Logo são abordados por um policial que lhes deixam passar sem problemas. Assim que o sujeito vai embora, Scorsese e sua editora de longa data, incluem uma rápida cena em que o oficial dá uma risada insana, mostrando como os homens que trabalham ali são tão perturbados quanto os pacientes. É um detalhe mínimo para um personagem discreto, mas que faz toda a diferença e revela por que esse sujeito é extraordinário.

O brilhantismo do diretor está (como sempre) nestas cenas marcantes. A chacina dos oficiais alemães, o trem estático com judeus mortos brotando para fora, a tempestade no meio da floresta, a invasão de ratos nas pedras. Talvez não faça muito sentido na hora, mas depois de descobrir o segredo do filme, procure lembrar as reações dos enfermeiros quando interrogados no começo pelos detetives. Todas cenas que facilmente vão ficar gravadas na cabeça de qualquer cinéfilo e possivelmente deverão ser estudadas mais para frente. E para quem achava que um filme sem moral não pode ter uma forte mensagem, espere até a última frase do roteiro proferida por DiCaprio, e que revela um detalhe interessantíssimo sobre a personalidade do sujeito, e uma escolha moral passível a algumas dúvidas.


Se você, assim como eu, não se animou muito com o trailer do filme, não se preocupe. A produção é sim um suspense psicológico e tem vários momentos de loucura à lá Stephen King, mas nenhuma delas deixa de fazer sentido depois que você junta as peças do quebra-cabeça. Scorsese fez um filme para divertir. Uma decisão que há muito tempo ele tomou para conduzir sua carreira. Muitos ainda esperam que ele surja com outro Taxi Driver, mas depois de maduro, ele está mais para Depois de Horas.


E se você também acha que Os Infiltrados não merecia os Oscars que ganhou (mesmo tendo como concorrentes os fracos Babel e Pequena Miss Sunshine) então talvez esse filme realmente não seja para você. Mas se você, assim também como eu, acha que este baixinho ítalo-americano é um dos maiores gênios vivos da sétima arte e não perderia por nada a chance de dizer aos seus filhos que viu seus filmes numa telona escura, então achou a produção certa. Afinal de contas, quando Kubrick lançou seu Iluminado no circuito não foi muito bem recebido por critica e público, e olha o que o tempo fez. Vai entender? E ainda dizem que os loucos são aqueles do lado de lá da cerca.




FILME COMPANHEIRO DE CELA:

“Um Estranho no Ninho”(1975), de Milos Forman. Uma daquelas produções que te deixam de queixo caído por algumas semanas. O final do filme de Scorsese me remeteu as questões expostas por esta produção realizada 35 anos antes. E alem disso, tem um Jack Nicholson extraordinário num papel mais do que marcante. É o filme definitivo sobre a loucura e Vencedor dos 5 Oscars principais.




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