quarta-feira, 3 de março de 2010

[Rec]ordar é morrer!

[REC] 2 (idem), de Paco Plaza e Jaume Balagueró, Com Manuela Velasco e Ferran Terraza.

Sem previsão de estréia no Brasil


Quando foi lançado há dois anos atrás na Espanha, [REC] dos estreantes diretores do mesmo país, era mais uma aposta no novo cinema espanhol que surgia como substituto do asiático para o gênero de terror. Embora a trama não fosse muito nova, ela tinha alguns elementos interessantíssimos que conquistaram um publico carente de bons sustos e assustaram até a terceira geração futura da minha família (e não estou brincando). O sucesso no resto do mundo foi tanto que a produção ganhou uma refilmagem americana com esteróides – e que também fez um relativo sucesso – mas que nem chega ao nível de choque do original. Isso foi há dois anos e infelizmente de lá para cá muita coisa mudou.


Uma coisa que ficou muito clara naquela época era que embora fosse apontado como um “filme de zumbis europeu”, [REC] só podia ser admirado e entendido por aqueles que o viram. Eu mesmo tentei explicar diversas vezes à amigos e insisti na frase “não são zumbis” até perceber que não adiantava você tentar convencer alguém que o filme era bom sem revelar detalhes cruciais sobre a trama, e conseqüentemente acabar com a graça de assisti-lo pela primeira vez. Então era ver ou não entrar na onda. A questão é que a onda acabou se tornando moda, e a moda chegou em todos os cinemas pelos formatos de Cloverfield, Irreversível e mais recentemente Atividade Paranormal – todos filmes excelentes mas que provaram que a fórmula era temporária e não poderia continuar gerando os milhões que o fez por muito mais tempo. Principalmente com uma continuação em que o grande segredo já tivesse sido revelado no primeiro filme (razão esta para não chamá-lo de “filme de zumbis” e também a qual recomendo, para o melhor prazer de vocês leitores que não viram o primeiro filme, que não leiam o resto da resenha e corram para a locadora mais próxima para alugá-lo).


Esse era o desafio dos diretores em recriar a experiência eletrizante do original em uma obvia e, eu diria, necessária seqüência, já que muitos pontos ficaram abertos embora a idéia principal tivesse coerência. Este aqui começa exatamente no minuto em que o primeiro termina, mostrando o que acontece quando uma equipe de soldados entra no prédio que foi isolado no primeiro enquanto tenta resgatar os sobreviventes. Junto com eles está um homem que tem a palavra final nas ordens e o único que pode autorizar a saída de todos uma vez que eles estejam dentro. Fugindo do obvio (que seria matar esse personagem logo de cara), a produção inverte um pouco a ordem da historia, e logo no começo explica tudo que se precisa saber e que ficou faltando no outro filme. Então quando o caldo começa a entornar, não para mais.


Os diretores acertaram em cheio em alguns novos elementos, mas deixaram a peteca cair feio em outros. Primeiramente, não dá pra compreender como algumas pessoas conseguem entrar tão facilmente no prédio visto que no original era quase impossível achar uma saída. Mesmo assim, os diretores conseguiram finalmente fechar a trama com detalhes fundamentais sobre a tal “infecção”. E reparem como a direção de arte foi cautelosa e detalhista em transformar o prédio no mesmo lugar que vimos anteriormente, detalhe por detalhe, inclusive os personagens e os locais das manchas de sangue.


O mais difícil porem seria trazer de volta uma das razões principais do original ter dado tão certo, e que responde pelo nome de Manuela Velasco (um pitéu). Alem de uma explicação brilhante para o seu desaparecimento durante todo o filme, seu surgimento envolve um momento tenso do novo [REC] e que mereceria uma trilha sonora elevada se a produção usasse alguma (alias, parte da tensão está também neste detalhe: a não utilização de um score). O retorno da repórter marca também a identificação que a personagem tem com o publico e justifica um final novamente surpreendente que vai fazer alguns marmanjos cair da cadeira (e que mostra que o final Spielbergiano para Atividade Paranormal poderia funcionar se tivesse sido mais bem adaptado para a trama em que se baseia).


Quando escrevi sobre o primeiro filme na resenha Inferno na terra, eu disse que havia um elemento na surpreendente produção de 2008 que embora não fosse nova, era eletrizante – o ato de te colocar dentro do lugar através de uma equipe de filmagem profissional e que não sacolejava a câmera freqüentemente. Pois bem, essa talvez seja a maior embora não a única diferença entre este novo filme. Como optaram em colocar as câmeras nos capacetes dos soldados (afinal de contas, nada justificaria a entrada de outro cameraman no prédio), os diretores tiraram parte da graça do original em permitir que víssemos absolutamente tudo que estava acontecendo e com clareza de detalhes. Neste aqui a câmera não só balança muito como perde o foco freqüentemente e toda hora sai do ar.


Há ainda uma trama paralela sobre alguns jovens que conseguem entrar no prédio pelo esgoto que não acrescenta nada ao filme, a não ser pelo fato de trazer mais corpos para morrerem dentro daquele inferno. Fora uns detalhes bobos aqui e outros ali, o filme consegue ser melhor que a média do gênero, mas fica devendo um pouco de originalidade a uma fórmula que acabou caindo no marasmo. Quem sabe no provável e já esperado [Rec] 3 tenhamos uma nova surpresa.


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