domingo, 21 de março de 2010

Uma Loira em minha vida

Um Sonho Possível (The Blind Side), de John Lee Hancock, com Sandra Bullock, Quinton Aron, Jae Head e Tim McGraw.

Dirigido pelo mesmo sujeito do épico O Álamo e roteirista do bom Um Mundo Perfeito, de Clint Eastwood, este drama baseado numa historia real é, sem dúvidas, acima de tudo uma escala para Sandra Bullock. Sim, a história é bonita, emocionante, tem uma mensagem de paz e com uma condução que deixa isso bem claro para seu publico, sem histórias paralelas ou exagero na trama não-linear. Mas também é um filme extremamente maniqueísta e calculado para te fazer chorar e refletir sobre o assunto, seguindo à risca a cartilha dos filmes do gênero. Em outras palavras, é um filme emocionante realizado por uma equipe centrada e fria.


Isso faz de Um Sonho Possível um filme ruim? De jeito nenhum – talvez faça dele mais um filme com o “selo Supercine” de ser, mas nada que comprometa. A produção é agradável, direta e em alguns momentos até engraçada. Tudo, repito, graças a uma dedicação ultra-extensiva de sua atriz principal. Quando digo que o filme é uma escada para ela (Bullock é o único rosto conhecido do elenco, já que Kathy Bates tem poucas cenas), não falo como uma coisa ruim. A moça realmente fez um trabalho muito interessante e, visto as concorrentes que tinha na disputa do Oscar, sem dúvida, mereceu levar a estatueta. E a prova disso é a cena em que escuta do rapaz que acolhe “que nunca teve uma cama”. Ao sair do quarto e ficar sozinha podemos ver em seus olhos, sem a necessidade de nenhuma palavra, as motivações que levam aquela forte mulher a fazer o que fez. É o “por que” mais rápido e sincero que o cinema produziu desde Comando pra Matar (ora, é verdade!).


O tal lado cego do titulo é uma expressão usada no futebol americano que se refere ao posicionamento do left tackle para proteger o quarterback antes que ele seja atingido pelos adversários. Em outras palavras, um jogador protege o lado que o outro não pode ver. É por causa da confiança depositada um no outro que o time inteiro pode vencer, mas acima de tudo, que ambos podem sair vivos (isso mesmo, vivos!) do estádio. É com essa explicação que somos apresentados a história do verdadeiro astro do filme, o jovem Michael Oher (Aron), oriundo de uma comunidade pobre e uma mãe viciada, ele consegue se matricular num respeitado colégio cristão longe de sua “área de criação” graças ao seu porte físico.


Como não tem dinheiro nem vontade de voltar para a casa, passa a caminhar pela parte rica de Baltimore até ser acolhido por Leigh Anne Tuohy (adivinha quem?), uma clássica dondoca do meio oeste americano, que lhe dá o que comer e onde morar, ultrapassando aquela inicial, mas não omitida barreira da desconfiança. Na verdade, a história dos dois lembra muito a de King Kong e Ann Darrow (ou a Bela e a Fera), pois em ambos os casos, o gigante fortão não sabe como expressar seus sentimentos e é conquistado pela pequena e frágil dama loira. A diferença, porem, é que neste caso aqui o gigante não é um bicho e a dama não tem nada de frágil.

Assim como todos os filmes “baseados em fatos reais” existem algumas liberdades artísticas que obviamente mascaram um pouco a verdade em prol da trama. Em uma cena, por exemplo, o jovem arrebenta com a cara de toda uma gangue de traficantes, o que apesar de implausível expressa claramente a confiança que o sujeito adquiriu ao ter sua vida transformada pela aquela família. Alias, essa quadrilha pode ser considerada a pior gangue do mundo desde já, visto que tomam um tremendo esporo de Leigh Anne e nem mesmo se impõem de maneira ameaçadora – algo que provavelmente funcionaria com uma ricaça metida a besta.


Segundo à risca o formato “filme para a TV”, a produção só deixa a peteca cair mesmo quando procura ser maior do que deveria e emenda numa sub-trama paralela sobre a escolha do menino para qual faculdade deveria jogar. Um pequeno deslize que aumenta desnecessariamente uma trama que obviamente só poderia ter um final feliz para que sua mensagem valesse a pena ser contada. É uma produção para toda a família, mas que está longe de ser um filme memorável. Talvez somente para Sandra Bullock.


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