quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Inferno é você

Baseado no artigo LOBO ANTUNES, FREITAS, CYPRESTE, MAFFEI E AS TRAVESSIAS DO INFERNO

Um dos maiores prazeres que tenho é escrever. Não me considero um especialista, mas admiro muito o trabalho de grandes roteiristas, seja através de um filme – muitas vezes somente assistindo um você é capaz de reparar a qualidade de um texto – seja através de um bom conto ou livro. Como roteirista eu sempre busquei três elementos básicos, característicos de filmes que me atraem: bons diálogos, uma trama envolvente, e principalmente, ser, na medida do possível, o mais centrado possível, ou seja, contar uma historia com bases reais e criveis, sem apelar demais para o fantasioso.

Um dos roteiros que mais me orgulho chama-se El Paso. Apesar da grande diferença em abordagem com os outros roteiros que escrevi, este em especial ilustra melhor o que eu mais gosto nos filmes: suspense, boa dose de humor e uma história original seguida de um final surpreendente. Não sou eu que costumo dizer isso, na verdade essas são as palavras que escuto desde 2006 quando escrevi o primeiro esboço, ainda enquanto filmava Cão de Guarda.

Na trama, um homem acorda em uma sala escura e é interrogado por outro homem que diz ser o Diabo em pessoa. Logo, o sujeito descobre que está morto, mas ainda não sabe se irá para o inferno ou o paraíso. Tudo dependerá da defesa de seus últimos atos antes de morrer, enquanto se encontra preso naquela sala em pleno purgatório (em espanhol, El Paso). O roteiro concentra a maior parte da ação dentro do lugar que dá nome ao curta, o que, ao mostrá-lo para algumas pessoas, me levou a descobrir que se tornaria um possível bom argumento para uma peça de teatro (ainda estou trabalhando nessa possibilidade juntamente com o produtor André Valente).

A questão é que El Paso me fez desbravar novos horizontes de possibilidades estilísticas. Mesmo não tendo lido influencias obvias ao roteiro como “Entre quatro paredes”, de Jean-Paul Sartre e “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar (algo que tive que corrigir posteriormente), pude perceber que alguma coisa na história transcendia a barreira entre cinema e literatura, integrando uma coisa na outra. Existem reais e claras semelhanças entre um trabalho e outro, e se não tivesse eu mesmo escrito a obra, obviamente duvidaria se não houvesse plágio das referencias citadas.

Uma das pessoas que mais me encorajou a ler algumas dessas obras foi Evelyn Blaut, uma das pessoas que revisou o texto do roteiro para mim. Foi dela que partiu também a maior surpresa desta semana, e a razão de eu estar escrevendo este post no blog. Anteriormente soube pela mesma que o roteiro estaria sendo discutido em seu artigo que poderia vir a se tornar sua tese de doutorado, mas nenhum detalhe mais explicito me foi passado apesar de minha insistente curiosidade. Esta semana tive acesso ao material escrito intitulado “Inferno” que coloca este humilde “blogueiro” ao lado de feras como António Lobo Antunes, Arthur Rimbaud, Lewis Carroll, Dante Alighieri e o já citado Jean-Paul Sartre. Todos com algo em comum: suas visões mundanas que a humanidade tem do lugar que amedronta católicos há séculos.

A obra de Blaut examina nosso fascínio pelo mundo dos mortos. Ao ler seu trabalho me peguei perguntando por que há mais livros escritos sobre este local do que sobre o Paraíso, por exemplo. O que nos provoca essa admiração (seria essa a palavra certa?) pelo lugar que muitos de nós cresceu doutrinado a temer?

Blaut conseguiu reunir excelentes exemplos de como o maior temor do homem (a morte) pode ser exatamente aquilo que ele mais deseja (a vida). Do País das Maravilhas ao inferno, Blaut conseguiu criar uma estrutura que mostra um fator em comum: o local mais longínquo e profundo (e escuro ou sozinho) que tememos estar, se encontra, de acordo com diversos autores e não somente eu, dentro de nós mesmos.

A obra me levou a conclusões lúdicas sobre minhas próprias influencias e motivações na escrita. Me fez pensar em roteiros e filmes que desenvolvi. Seus temas. A mentira, a violência, o vício. Todos eles o mesmo e singular medo que atormenta o homem. Seu inferno. E o que eu acreditava ser um texto original já havia sido tratado inúmeras vezes por diversos autores ao longo dos séculos. Esse era meu medo desde o começo, escrever algo que não fosse novo. Mas graças a este intrigante estudo da autora pude perceber que uma obra é mais que isso. A questão não é criar algo inovador, mas inovar uma idéia para novos públicos. De repente descobri que este roteiro é mais atual do que pensava.

Graças a esse surpreendente trabalho, consegui exorcizar mais um medo de todo amante da literatura que humildemente se aventura a escrever. Um abismo que só aqueles que se depararam entre seus desconexos pensamentos e uma folha de papel em branco podem entender. Obrigado Evelyn pela indescritível e honrosa homenagem. E acima de tudo, obrigado por ajudar a olhar com coragem para dentro do meu próprio inferno. Obrigado por fazer enxergá-lo com um pouco mais de lucidez, talvez. E vocês, caros Ratos de Cinema, já tiveram a chance ultimamente de olhar para dentro de seus próprios infernos?

1 comentários:

Bruno disse...

Já tive essa chance de olhar sim! E graças a deus, já tive a chance de olhar tbm esse roteiro, que particularmente eu acho maravilhoso!