domingo, 1 de agosto de 2010

Mini-resenhas: Agosto 2010


Pode ver sem medo


Splice (Splice), de Vincenzo Natali. Com Adrien Brody e Sarah Polley

Ainda sem previsão de estréia

A minha geração de amantes de cinema cresceu com uma leva de grandes diretores oriundos em sua maioria do gênero de ficção cientifica – Ridley Scott, Cameron, Cronenberg, Spielberg, (só não digo Lucas, porque ele só fez marketing), e a lista segue. De lá pra cá, parece que o cinema não mudou muito, ou, se mudou, está retomando essa regra de revelar excelentes surpresas em filmes desse gênero. Distrito 9, ano passado, e mais recentemente Splice são os mais novos exemplos disso. Na verdade, dizer que Natali é uma revelação da ficção cientifica é um absurdo pois ele já havia sacudido o gênero com o primeiro filme da excelente série Cubo.


Dessa vez, o diretor brinca de Deus e de Mary Shelley contando a história de dois cientistas que procuram uma vacina para diversas doenças misturando os genes de várias criaturas, dando origem a uma única não-humana (uma técnica chamada Splicing, que não tenho idéia de como vão traduzir). É depois de uma grande descoberta que o casal de cientistas resolve dar um passo mais adiante e clonar uma espécie mutante usando DNA humano (alias, a origem do tal DNA foi a maior surpresa do filme pra mim). A partir daí o filme recicla diversas questões levantadas séculos antes em Frankenstein sobre paternidade e responsabilidade de educação – e como fã incondicional do livro sou suspeito de falar sobre filmes que bebem na mesma fonte. Adianto logo que não se trata de um filme de terror, embora pudesse ser facilmente comparado à A Experiência e Mutação. É um filme que merece uma calorosa discussão após o seu nem-um-pouco-ético final.



Repo Men – Os Coletores (Repo Men), de Miguel Sapochnik. Com Jude Law, Forest Whitaker e Alice Braga

Estréia dia 17 de setembro


Aqui pode estar nascendo um grande diretor de cinema, mais um que promete graças a um trabalho excepcional em uma ficção cientifica. Não confunda esse clássico moderno com o Cult alternativo Repo Man – A onda Punk (1984), com um jovem Emilio Estevez. Neste aqui, Jude Law (uma excelente escolha do diretor, alias) vive um soldado que trabalha para uma organização privada chamada de “A União”, responsável por vender órgãos mecânicos que substituem os orgânicos daqueles que tem necessidade de um transplante ou para melhorar a estética. Seu trabalho, como ele mesmo diz, “é simples”: ele recupera os órgãos daqueles que não conseguem pagar pelos caros produtos, deixando o caloteiro no chão sangrando até morrer. O caldo começa a entornar quando o sujeito sofre um acidente e tem um coração transplantando em seu peito. É claro que ele não poderá pagar, e mais obvio ainda que será caçado pelos próprios companheiros.


Por mais que a trama pareça a coisa mais clichê do mundo, tenha uma coisa em mente: nada neste filme beira ou espera estar no nível do sério. O filme é uma grande piada com um assunto que assola absolutamente todos os países do planeta – a doação de órgãos e a saúde nas mãos de empresas privadas. Repo ainda vai alem! Consegue pular de cena pra cena ousando mostrar situações cada vez mais surreais – poderia listar dezenas aqui, mas iria estragar metade da graça do filme. Alem disso, o trabalho dos atores é impecável para uma ficção que mistura grandes doses de ação e sangue (lembre-se qual é o tema do filme e você vai entender por quê). Jude Law merece todo os créditos por um trabalho físico excepcional sem esquecer do lado emocional de seu personagem. Alice Braga está muito bem como a mulher que lhe auxilia na fuga, mas o grande crédito vai para a dupla de vilões do filme, no caso Forest Whitaker e Liev Schreiber (será que Hollywood finalmente aprendeu a dar dimensão aos seus anti-heróis? Será que o mundo aprendeu com Nolan e Ledger?). E se ainda assim você não está convencido que deveria ver esse filme, tenho que confessar que poucas vezes vi um final, para um filme desse gênero, com tantas e complexas possibilidades morais. Fica difícil até saber se podemos considerá-lo feliz ou não. Uma prova de coragem de um diretor semi-estreante que mostrou que possui uma visão promissora do gênero. Que venham os próximos.



Shrek para Sempre (Shrek Forever After), de Mike Mitchell. Vozes de Mike Myers, Eddie Murphy e Cameron Diaz

Em cartaz

A franquia do ogro criado pela DreamWorks para duelar cara a cara com a Pixar chega ao seu quarto filme e, poderia dizer, com energia suficiente para continuar entretendo platéias infantis e adultas, contando agora com a inovação do 3D (obrigado, Cameron!). Na nova trama o ogro parece cada vez mais triste com a monotonia da vida de casado e com a fama que ganhou em Tão, tão distante, onde ninguém mais sente medo dele. Depois de brigar com a esposa, ele faz um daqueles contratos bem no estilo Fausto com o nanico Rumpelstilskin (quero ver alguma criança decorar esse nome) e, obviamente, vê sua vida se transformar num inferno ainda maior.


A grande sacada deste filme, agora dirigido pelo mesmo sujeito que fez Gigolo por Acidente (?!?), é que o filme realmente tem uma trama interessante. Nada no nível de uma obra da Pixar, mas pelo menos o suficiente para prender a atenção da garotada e dos adultos durante o seu curto tempo de projeção. A série Shrek, alem de debater temas como aceitação pessoal e preconceitos de raça, tem sido também os únicos filmes que prestam nos últimos anos das carreiras de Myers e Murphy – e não é a toa que o personagem do Burro continua sendo o centro de praticamente todas, e quase sempre as melhores, piadas de todo o filme. A decepção fica com a pequena participação do Gato (interpretada magistralmente por outro falido do cinema atual, Antonio Bandeiras). O último capitulo da série de filmes (será?) é na verdade superior ao terceiro e igualmente divertido como o segundo (o primeiro continua imbatível), e embora tenha que apelar para situações um pouco exageradas para tal (nada que incomode a garotada, claro), é diversão garantida para o final de semana principalmente se apreciado em 3D. Ainda assim, é visível que a franquia anda perdendo o fôlego.



Vá por sua conta e risco


O Profeta (un prophète), de Jaques Audiard. Com um elenco desconhecido de franceses.

Em cartaz


O Profeta é um filmasso! Se tivesse o critério das cinco estrelas, eu daria quatro sem pestanejar. O filme arrecadou dezenas de prêmios mundo afora (diversos pela Europa) e arrebatou uma indicação este ano para o Oscar de filme estrangeiro. Por que diabos então não o indico como diversão garantida aqui em cima? Simplesmente porque O Profeta é o típico filme europeu que muitos brasileiros não curtem. É um filme-denuncia sobre o papel que a prisão tem na vida de um ser humano, por melhor que ele seja. Não é divertimento nem em seus momentos mais cômicos (se é que podemos chamar esses momentos de cômicos). Então, a menos que sua namorada seja uma daquelas cinéfilas alternativas que curtem a violência visceral e o ritmo lento de uma verdadeira produção européia, você está fadado a apanhar e muito dela durante a projeção.


Alias, este filme merecia ter uma sessão dupla com o italiano Gomorra do ano passado, por retratarem tão bem o modo de vida de pessoas comuns em contato com o crime organizado (aquele em Nápoles, este numa prisão do sul da França). À primeira vista, a história do jovem Malik, preso por assalto e agressão (embora ele diga ser inocente) pode parecer moleza se compararmos as condições das prisões francesas com as nossas. Alem de cela própria, o sujeito não corre o risco de ser estuprado por negões a todo o momento e até consegue participar de trabalhos voluntários que pagam (pouco, é verdade) por seus serviços. Ainda assim, o clima de tensão paira no ar desde o momento em que lhe é exigido que ele mate um árabe que incomoda o clã dos italianos naquele lugar. A partir daí, o filme se torna uma aula de cinema com cenas antológicas e extremamente realistas. Os últimos 5 minutos do filme, alias, são de uma poesia e genialidade que qualquer cineasta gostaria de ter em seu currículo.


O Escritor Fantasma (The Ghost Writer), de Roman Polanski. Com Ewan McGregor, Pierce Brosnan e Cate Kapshaw

Em cartaz

O mais novo suspense de Polanski não tem o clima diabólico de O Bebê de Rosemary, nem a tensão angustiante de O Pianista. Mas há uma clara e presente sensação de paranóia ao longo das cansativas, mas necessárias, duas horas e pouco de projeção. Ao contrário de seus melhores filmes anteriores, o diretor se aventura pelo drama político, bebendo em obvias referencias reais – reparem como os personagens fictícios são idênticos aos da vida real, com destaque para uma Condoleeza Rice, quase idêntica – que lembra os melhores filmes do gênero, criados por Pakula e Pollack nos anos 70.


Baseado na obra de Robert Harris, o filme conta a historia de um escritor que não existe (tanto que o personagem principal nem possui um nome e sempre se apresenta como “fantasma”). Sim, um escritor contratado para escrever a biografia do primeiro ministro britânico (Brosnan, muito bem alias) depois que seu predecessor fora encontrado morto numa praia dos EUA, supostamente por suicídio. Ao investigar mais ele descobre que assim como o ultimo autor nem tudo que lhe foi dito é verdade sobre o passado do político (e não seria assim com todos?). Apesar de uma surpresa bastante obvia, Polanski mostra a segurança clássica com suas escolhas de planos, com destaque para a última cena do filme que omite um detalhe fundamental, deixando para os expectadores a sua conclusão mais apropriada. Um filme moderno com cara de trinta anos atrás.


Karate Kid (The Karate Kid), de Harald Zwart. Com Jaden Smith, Jackie Chan e Taraji P. Hanson.

Estréia dia 27 de agosto


Não sei se eu emburrei agora que fiquei mais velho, mas devo confessar que não entendi esse Karate Kid. Vou tentar de toda maneira não comparar essa nova versão – “presente do papai” Will para o filho Jaden Smith – com a clássica de 1984. Vou tentar fingir que não me incomoda o nome “Dre Parker” (ao invés do italiano Daniel Larusso) para um jovem negro, e nem mesmo não ser lembrado o antológico nome Miyagi (personificado pelo ator e não-carateca Pat Morita) - ou mesmo “Cobra Kai”. Nem ficarei triste de o jovem negro não ser descriminado por sua descendência americana ou raça, mas sim pelo fato de “não saber lutar Kung-Fu”. Não entendi mesmo foi por que o filme se chama Karate se a palavra nem mesmo é mencionada na produção? Como a produção se passa em Pequim, não faria sentido o jovem aprender Karate, uma arte marcial japonesa. Então por que não chamar simplesmente o filme de Kung-Fu Kid? (claro que a resposta para essa pergunta seria “estratégia de marketing”).


Não entendi como um menino de 12 anos consegue andar sozinho pela super-populosa China sem nem falar a língua, conseguindo sempre achar o caminho de casa. Ou treinar alguns dias e conseguir dar golpes que deixariam Bruce Lee de boca aberta – alias, as cenas de luta são muito bem coreografadas, mas a opção de usar cabos em excesso durante o terceiro ato acaba com qualquer tentativa de se criar uma identificação realista com o filme e beira o ridículo – pra não dizer risível. Parece que de repente a produção resolve se transformar num O Tigre e o Dragão. Em geral o filme não é ruim – nem teria como ser já que usa a mesmíssima estrutura do filme em que é baseado – mas sua forma é tão cuidadosamente construída que deixa o filme faltando o que existia no despretensioso filme da década de 80: carisma e alma. Se a idéia era promover o filhão Jaden como ator, parabéns, o garoto realmente parece ter um futuro promissor (desde já, é mais ator que Orlando Bloom, Paul Walker, Hayden Christianssen e Jessica Alba juntos). De resto, definitivamente, não entendi.



Não faça isso com o seu dinheiro


Par Perfeito (Killers), de Robert Luketic. Com Aston Kutcher, Katherine Heigl e Tom Selleck

Estréia dia 27 de agosto

Vamos deixar uma coisa bem clara desde o inicio: este novo filme do diretor de Quebrando a Banca e A Verdade nua e crua não é tão ruim quanto essa qualificação pode parecer. Pelo contrário, por optar do meio para o final em transformá-lo em um filme de ação, ele até consegue prender a atenção do expectador mesmo que seja “para ver como toda essa palhaçada vai acabar”. O problema mesmo é que até chegar a sua metade, o roteiro perde tempo demais para contar uma historia pra lá de obvia e incrivelmente absurda. Vamos a ela: um assassino profissional se apaixona por uma solteirona recém abandonada pelo noivo durante o primeiro encontro (!). No segundo pede a mão para o pai da moça em casamento (!!), três anos depois começa a ser perseguido por assassinos que eliminaram o seu chefe. Ah, mas não é só isso, tem a surpresa lá no final que faz você querer acreditar que realmente existiam assassinos maus querendo o ver morto (acreditem, é um dos piores twists da historia do cinema).


Pra piorar a situação, a personagem de Heigl é a mulher mais burra, estúpida e tapada da face da terra. Não existem palavras e desperdício de tempo suficiente que exemplifique o quanto sua Jen é irritante. Por mais que sua beleza seja hipnotizante, torci algumas vezes para o personagem de Kutcher (um bom ator com péssimo gosto para escolher filmes) poupá-la de sua miséria. A mulher é tão chata que ATÉ MESMO SUA MELHOR AMIGA NO FILME DIZ ISSO PARA ELA, com todas as letras. Mas insisto que talvez o filme chegue a agradar ambos os sexos pela dose, ainda que irregular, de ação e “comédia”. É uma espécie de Sr. & Sra Smith genérico bem mais fraco (não que o filme de 2005 possa ser considerado sob nenhum aspecto bom). Não é um filme horroroso por assim dizer, mas definitivamente não vale o caro ingresso da telona.


Morte no Funeral (Death at a Funeral), de Neil LaBute. Com Chris Rock, Zoe Saldanha e Martin Lawrence

Estréia dia 20 de agosto

Refilmagem de uma produção inglesa de mesmo nome feita no longínquo ano de 2005 (!) esse filme parece não ter razão de existir a não ser o obvio: dar uma “roupagem negra” a comédia de situações. O problema é que o original, dirigido pelo especialista no gênero Frank Oz (Os Picaretas e O Pai da Noiva), já não era tão bom assim e nas mãos de um roteirista excelente, mas diretor mediano, como Neil LaBute, a coisa não melhora lá muito também. O filme se passa durante o dia do enterro do patriarca de uma família sem nome definido. Cada membro da família porem está passando por problemas que afetarão o andamento da cerimônia: desde o filho mais velho que tem a pressão de receber os convidados e fazer o discurso do velório (Rock) até o namorado da prima (James “Cyclope” Marsden) que toma um comprimido de êxtase pensando ser Valium e transforma a cerimônia num pandemônio. Quem rouba a cena no fim é o anão vivido por Peter Dinklage (único ator a reprisar o mesmo papel em ambos os filmes), personagem fundamental na trama do filme.


Trama essa que não tem muito o que contar a não ser por situações cada vez mais absurdas (e, nesta versão, escatológicas). Se você for ao cinema para rir provavelmente vai se divertir um pouco, mas nada que se compare ao peso que o elenco estelar promete e poderia oferecer. Se quiserem uma dica, fiquem com o excelente trabalho de Blake Edwards e Peter Sellers em Um Convidado Bem Trapalhão, uma obra prima do gênero no cinema, e esse sim, um magistral exemplo de como fazer uma boa comedia de situações.

1 comentários:

Rafael disse...

já estava com saudades dessa seção do seu blog... que bom que voltou!!! Abs!