A Origem (Inception), de Christopher Nolan. Com Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page e Joseph Gordon-Levy
Em cartaz
Christopher Nolan é um gênio do cinema moderno. Só mesmo usando a palavra gênio para definir um sujeito que criou na última década alguns dos filmes mais desafiadores, divertidos e inovadores que o cinema moderno pode oferecer. Quem me conhece sabe que eu rasgo seda pro cara há anos, mas o que posso fazer se o sujeito nos surpreende a cada filme? Quem poderia duvidar de sua capacidade de resgatar um dos mais populares heróis dos quadrinhos que se encontrava abaixo do limbo e era recusado por 10 entre 10 diretores de Hollywood?
Quem poderia inovar com o uso da tecnologia de alta definição (IMAX) que existia muitos anos antes mas pouco era utilizada em produções que não fossem documentários? Alias, temos que lembrar que por optar em filmar O Cavaleiro das Trevas em IMAX, Nolan forçou milhares de salas nos EUA e mundo afora a se modernizarem para abrigar tal tecnologia e continuar atraindo o publico para vivenciar uma experiência que não poderiam baixando o filme em casa. (preciso confessar que fiz questão de ir assistir ao filme em uma sala de IMAX, a única do Brasil, e fiquei ainda mais maravilhado com a imagem e principalmente o som. Não existe coisa igual e apesar de significamente mais caro, o ingresso vale cada centavo).
Inception, ou "inserção" (a palavra “incepção” até existe e deveria ter sido colocada para o titulo português. O problema é a confusão já ia começar ai, né), de acordo com o filme, é o conceito de colocar uma idéia na cabeça de uma pessoa para que ela faça algo sem perceber que está sendo levada por seu subconsciente a fazê-la. No filme isso só pode ser feito se algumas regras forem respeitadas (a pessoa precisa achar que foi idéia dela, e não que foi induzida por terceiros, e a coisa toda terá maior chance de sucesso se for resultado de uma experiência positiva, uma catarse). A fim de acabar com a concorrência, um rico empresário resolve contratar ladrões de segredos (DiCaprio e seu time) para plantar na cabeça de seu rival (Cillian Murphy) a idéia de dividir seus negócios. Logo no inicio do filme descobrimos que a maneira que o grupo tem de fazer isso é entrando no subconsciente de seus alvos enquanto eles dormem. E o resto só vendo. Posso adiantar que isso é só 1/5 do que realmente acontece, e que metade do filme se passa no mundo dos sonhos, durante a “incepção”.
Independente de você gostar ou não do filme, duvido que não concorde que todas as atuações do magistral elenco estão niveladas por cima. Sim, DiCaprio repete o personagem marcado pela perda da mulher (assim como em Ilha do Medo), mas consegue fazer de seu Cobb um sujeito completamente diferente do policial que interpretava no filme de Scorsese. Alias, é muito interessante perceber que seu personagem seria completamente inútil se não fosse o excelente elenco de apoio que ajuda a trama a avançar. Assim como em seus filmes anteriores, Nolan consegue desenvolver grande parte da história de cada personagem, dando a eles mais do que uma simples especialidade, mas uma personalidade. Assim, é fácil saber porque atores consagrados como Cotillard e Cane querem trabalhar com ele, e mesmo assim, o diretor encontra espaço para colaborar com talentos ascendentes (como o caso de Watanabe, Levy, Page e Hardy – que seria o melhor nome para o Charada na minha opinião) e ainda ressuscitar atores esquecidos como Tom Berenger (assim como fez com Gary Oldman, Robin Williams e Rutger Hauer).
Nolan, que trabalhava no roteiro antes mesmo de Batman Begins, povoa seu filme com regras e idéias (algumas tiradas da própria fundação da psicanálise e outras baseadas em conceitos bem reais) que ditam o ritmo do filme. Um exemplo disso é a idéia de que nos sonhos o tempo funciona de maneira mais lenta e cada vez que nos aprofundamos neles (ou mais perto do subconsciente) ele vai ficando cada vez mais lento. Quem nunca sonhou durante um rápido cochilo mas teve a impressão de ter dormido bem mais? Outra é o conceito dos sedativos que fazem com que um sonhador não acorde com um simples barulho, mas ao contrário, durma profundamente e só desperte com um susto brusco, como a sensação de estar caindo ou de estar se afogando – uma idéia que vai te fazer refletir dias se você analisar bem como o filme começa e a surpresa que abre diversas possibilidades em seu final (Sim, é obvio que existe uma surpresa nos minutos finais. Afinal de contas, se não houvesse não seria um filme desse magnífico diretor). Mas, obviamente, só será arrebatador para aqueles que tiverem compreendido as regras do filme.
Essas regras de mundos alternativos (no caso deste, os sonhos), explicam as comparações com Matrix e outros filmes do gênero. Só que Nolan consegue ir alem. Ele cria o fundamento do sonho dentro do sonho, ou seja, um personagem dorme dentro do próprio sonho criando uma terceira realidade onde o tempo se passa ainda mais devagar. É como se dentro da Matrix, Neo entrasse dentro de outra e depois outra. Portanto se o filme dos irmãos Wachowski já era complicado de ser compreendido por um publico desatento e acostumado a tramas batidas e recicladas, neste aqui esse conceito é elevado à máxima potencia se levarmos em conta que em determinado momento estamos assistindo a cinco realidades diferentes acontecendo ao mesmo tempo e cada uma com uma importância especial para a compreensão da trama. Conclusão: se você tiver que ir ao banheiro durante a projeção esteja pronto para sair da sala em seguida, porque de nada vai adiantar voltar depois daqueles preciosos dois minutos que você perdeu.
Quem achar o filme complexo (alguns críticos preguiçosos, por exemplo) ou vazio (alguns equivocadamente acreditam que este é um filme-pipoca disfarçado e não poderiam estar mais errados), esteja certo de uma coisa: tudo, absolutamente tudo, é explicado pelo menos umas duas vezes durante todo o filme. E mesmo quem não compreender pode deduzir certas coisas enquanto a ação se desenrola. Obviamente, se você é do tipo que vai ao cinema só pra comer pipoca e desligar o cérebro, espere até o ano que vem quando estrear Transformers 3. Aqui está o melhor filme-cabeça que os rios de dinheiro de Hollywood podem comprar. Ainda assim, quem não conseguir pescar tudo, pode ler os magníficos textos publicados por Ana Maria Bahiana (anamariabahiana.blog.uol.com.br) ou Pablo Villaça (cinemaemcena.com.br) que resumem bem o conceito da produção.
POR FAVOR, SÓ LEIA SE JÁ TIVER VISTO O FILME.
A dúvida que acompanhará todos os expectadores na saída do cinema, é a duvida que reside com o personagem, mas assim como ele mesmo deixa claro ao não acompanhar o resultado do seu totem, é que sonhando ou não o que importa é o fato dele estar com os filhos e finalmente poder ver seus rostos novamente. Então qual é a conclusão do filme? Ora, a mesma de seus dois primeiros filmes, Following e Amnésia, pincelada também em O Grande Truque: todos nós precisamos nos enganar para sermos felizes ou termos uma razão para continuar vivendo. Se nos sonhos pensamos estarmos vivendo a realidade e na realidade mentimos para vivermos um sonho, afinal de contas a quem estamos querendo enganhar, as pessoas ou a nós mesmos?
Como fica claro, um filme de Nolan não é somente o que está na superfície, mas o que nos faz refletir durante horas, dias ou anos. Para essa pergunta ai, eu já tenho a resposta, que é simples se analisarmos essa questão por camada mais profunda do subconsciente: Nolan é um gênio, e pronto.


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