Em Cartaz
Ao sair do cinema depois de assistir a essa continuação do sucesso de 2007 era possível ouvir um alfinete cair no chão. Casais de mãos dadas nem se olhavam. Um silêncio seco. Como se o público tivesse entrado por uma porta buscando diversão e saísse por outra depois de levar um chute no estomago de um coturno de um soldado. Um plano-sequência que encerra o filme dá bem a dimensão do objetivo e a importância do filme ao levantar a mais obvia questão: quem seriam os responsáveis por aquilo tudo que vimos na tela? Nós, obviamente. E graças ao brilhantismo da equipe técnica por trás dessa produção, liderada magistralmente por José Padilha, teremos eternamente um filme para nos lembrar dessa nossa culpa.
Enquanto o primeiro filme foi um fenômeno brasileiro que conquistou diversos países (vencendo Berlin, mas sendo ignorado pelos “entendidos” da comissão que nomeou O ano em que meus pais saíram de férias em seu lugar para o Oscar), a espera em cima desta continuação só dobrou a responsabilidade de seus realizadores que, na época do primeiro, ficaram impressionados com a popularidade de um anti-herói claro, mas infelizmente, necessário para uma cidade como o Rio de Janeiro. Mas se você acha que o que viu no trailer deste filme é uma prévia da trama ou dos milhares de temas que ele trata, não poderia estar mais enganado.
Nesta continuação, logo de inicio, somos jogados à frente de uma emboscada para assassinar o agora subsecretário de segurança Nascimento. Logo descobrimos que ele foi exonerado do BOPE depois de alçar a condição de coronel, e causar um problema político ao cuidar de maneira violenta de uma rebelião em Bangu I. Mas Nascimento, como ele mesmo diz, “não cai para baixo e sim para cima”. Se torna responsável por escutas clandestinas auxiliando o BOPE e o governo a acabar com o tráfico nas favelas. É ai que o filme realmente começa a exaltar seu brilhantismo. Enquanto o primeiro filme tinha a intenção de nos mostrar como é formado um soldado do BOPE e como ele opera dentro de uma cidade corrompida, o segundo filme nos mostra como o trabalho dos “mocinhos” pode ser manipulado em prol do próprio “sistema”, como diria o personagem. Ao limpar uma comunidade, Nascimento se vê as voltas com o crescimento de Milícias diretamente ligadas a candidatos políticos para os quais ele é subordinado.
Tudo é detalhadamente explicado e de maneira clara, como só talentos como o do roteirista Bráulio Mantovani e do montador Daniel Rezende, auxiliados pelo espetacular argumento do ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel poderiam fazer. Embora as redes de interesse da política e do crime sejam ainda mais amplas e confusas, o filme faz o trabalho de simplificar a ponto de nos revelar em detalhes como uma milícia pode ser implementada com facilidade em comunidades carentes.
O filme segue uma estrutura narrativa muito parecida com a do primeiro filme – flashbacks, assassinatos surpreendentes, vítimas que chocam a opinião pública, vinganças pessoais – mas a grande diferença deste segundo, e o que o torna ainda superior ao original, é o fato de colocar o dedo na ferida sem piedade. Portanto quando vemos Nascimento batendo ensandecidamente em um político ou dizendo que a PM carioca deveria acabar, é a vontade de nós cariocas (ou melhor, brasileiros) que ele personifica.
O discurso do filme (antes chamado de fascista pelos “entendidinhos”) continua afiado como no primeiro filme e no livro Elite da Tropa, o que alias era um dos meus medos para esta continuação. A metralhadora giratória do roteiro continua afiada, atirando para cima de maconheiros, corruptos, omissos e principalmente falsos moralistas – o caso do propositalmente forçado deputado e apresentador de TV interpretado por André Mattos, que guarda uma descarada semelhança com Wagner Montes (com direito até a dança do “capiroto”).
Alias, me surpreende até como diversas empresas de rabo preso com o governo bancaram um filme com um discurso tão acido.
Mas esta mesmo na força do elenco magistral e no trabalho de direção de Padilha o grande êxito deste filme – que não tenho dúvidas irá se tornar a produção mais bem sucedida do ano, talvez de todos os tempos. O meu destaque fica com os trabalhos de Sandro Rocha, como o grisalho vilão que rivaliza de perto com o eterno Zé Pequeno (reparem até que ele usa uma variação da clássica frase “quem disse que a boca é tua?” em certo momento). Outro que rouba literalmente todas as cenas, e até a preferência do publico, é Irandhir Santos e seu obstinado e honesto Fraga.
Ainda assim, é Padilha, esse gênio da sétima arte, que constrói um clima de tensão e tragédia magistralmente movendo a câmera e guiando seus atores para montar um quebra cabeças que externa a verdade escondida em cada esquina da cidade do Rio, que até os cariocas mal conhecem. Em determinado momento, ele lembra até Martin Scorsese, tamanha a precisão e conhecimento da arte – algo que se revela a cada trabalho do diretor, que alem de tudo é um excelente documentarista.
Assistir Tropa de Elite 2 é uma espécie de exorcismo de todo mal que sofremos e vivenciamos todos os dias por darmos poder demais sempre aos mesmos rostinhos famosos e seus amiguinhos. É um tiro de verdade em nossa apatia e um clamor por justiça, seja ela contra quem for. Assistir Tropa de Elite 2 é mais do que uma obrigação para todo cinéfilo de verdade. É um dever cívico para todo cidadão brasileiro.
Uma observação: identifiquei pelo menos duas cenas vistas no trailer que não estão no corte final do filme que chegou ao cinema. A primeira é uma em que o capitão Matias diz para Nascimento que “deu merda em Bangu 1”, e a segunda, a que o próprio Matias atravessa uma área cercada pelo trafico e é parado por um criminoso para logo depois continuar até passar por um ônibus em chamas. Por que saíram e como se encaixam no filme, eu não saberia dizer.


4 comentários:
O filme é sensacional mesmo! Mas é difícil digerir logo de cara, precisa ser estudado com calma! Agora, horas depois de assistir (com você), percebo detalhes sensacionais que enriquecem a trama de uma forma tão brilhante que seria um sacrifício tirar qualquer cena. Falando nas cenas que ficaram fora, é engraçado pelo seguinte: a cena de "deu merda em bangu 1" ficou de fora sabe-se lá porque, pois antes mesmo de o filme estreiar, essa frase já havia sido transformada em bordão pela própria produção; a segunda cena é mais bizarra, pois o ônibus em questão foi totalmente preparado pelos técnicos americanos contratados para efeitos especiais e deixam de fora a cena. Vai saber! Verei de novo e tenho dito!!
É verdade, Bruno.
Deram bastante dinheiro pra produção, reuniram vários figurantes, mas na hora do corte final não serviu. Isso é cinema!
Vi de novo e continuo com a minha opinião: filme foda! Acho que cada vez que assistir gostarei mais, igual aconteceu com o primeiro. Mas conversando com algumas pessoas, já vi opiniões adversas dizendo que o 2 é parado, que o primeiro é bem melhor, etc etc. Como opinião é que nem C**, eu fico com a minha! :)
É como eu disse... Se você for esperando um filme de ação, talvez não goste muito. Mas nunca achei que o primeiro filme fosse um filme de ação. E acho esse segundo filme extremamente dinâmico sim!
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