Pode ver sem medo
A Rede Social (The Social Network), de David Fincher. Com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield e Justin Timberlake
Estreia dia 3 de dezembro
Baseado nas histórias que envolveram a criação de um dos mais famosos e populares sites do momento, o Facebook, o novo filme de David Fincher dá um passo alem nas cine-biografias que tanto fazem sucesso nesta época do ano (período pré-Oscar): nem a trama nem os personagem têm qualquer tentativa de se assemelhar ao real. Nomes, datas e eventos são meros detalhes que auxiliam o diretor a realizar sua segunda produção biográfica (Zodíaco também utilizava personagens reais para contar histórias quase reais) e dar um passo ainda mais interessante na brilhante carreira desse diretor de olhar moderno e obscuro.
Contado em flashback durante duas audiências de processos onde Mark Zuckerberg (Eisenberg, de Zumbilândia, brilhante) é acusado de plagiar a idéia dos criadores do “Harvard Connection” (um site com as mesmas idéias) e de quebra de contrato por seu único amigo Eduardo (Garfield, o próximo Homem-Aranha), o filme segue a trajetória trágica deste sujeito que parecia aproveitar de sua inteligência para criar milhões e destruir amizades com a mesma facilidade. Mark pavimenta aos poucos a estrada que vai destruindo suas amizades principalmente ao entrar em conflito sobre como tocar o crescente negócio, tarefa ameaçada ainda mais pelos conselhos paranóicos de Sean Parker (Timberlake, surpreendente), o criador e destruidor do Napster, site acusado de quebrar os direitos autorais das gravadoras.
Logo na primeira cena fica claro que Mark é incapaz de se comunicar e lidar com as pessoas ao externar de forma impensada e até humilhar a menina que ele deseja. Uma cena emblemática do que está prestes a seguir – se de fato o verdadeiro Mark é ou não assim, isso não importa, já que a cena tem importância crucial para o Mark que Fincher construiu em sua trama de traições e ganância.
A idéia da criação do Facebook é magistralmente apresentada por Fincher logo nos primeiros minutos do filme, mas se você sentar em sua cadeira esperando um filme que explique mais sobre a funcionalidade da engenhoca, esqueça. Este filme nem mesmo é sobre o Facebook, mas sobre o caráter dos homens que pregam e enriquecem em cima de algo que são incapazes de compreender. Mas que atingem o sucesso através de suas visões empreendedoras, conhecimento das ferramentas e trabalho duro – vale o destaque para cena em que o diretor mostra através de vários cortes que enquanto aqueles jovens se dedicam a criar, outros da mesma faculdade se divertem de maneiras diferentes frequentemente abusando do álcool e sexo, o que na verdade só valida ainda mais a iniciativa dos amigos nerds em terem conseguido o sucesso que se segue.
O tema central do filme, alias, é exatamente o questionamento da idéia de amizade hoje em dia (algo que fica magistralmente retratado na simbólica e patética cena final). A amizade que se cria em redes de convívio online pode realmente ser considerada verdadeira? Zuckerberg, o verdadeiro, volta e meia aparece na mídia falando sobre “conectar o mundo de maneira simples”, o que não deixa de ser irônico vindo de um sujeito que criou o maior portal de relacionamento da internet, mas era incapaz de fazer algum amigo em sua vida real (fato verdadeiro?).
Mas será que tudo isso vale a pena no final das contas? Será que o numero de pessoas em seu perfil te define como pessoa? Não achava que um raio fosse capaz de cair três vezes no mesmo lugar, mas assim como fez em Clube da Luta e Seven, o diretor novamente conseguiu, em suas devidas proporções, criar um novo conto moral sobre nossa sociedade moderna.
O Assassino dentro de mim (The Killer inside me), de Michael Winterbottom, com Casey Affleck, Jessica Alba e Kate Hudson.
Em cartaz
Do mesmo diretor dos excelentes O caminho para Guantánamo e O Preço da Coragem, este novo filme deste mestre do cinema documental (quase um Soderbergh) é um discreto e agressivo estudo sobre a natureza de um assassino. A trama nos apresenta sem muitas delongas ao policial Lou Ford (o magnífico Affleck, mostrando mais uma vez quem é o talentoso ator da família), que ao atender um chamado acaba conhecendo e iniciando uma relação masoquista com uma prostituta local (Alba, usada no filme exatamente o tempo que merece). Juntos arquitetam um plano para roubar o dinheiro de um playboy local e ainda vingar a morte de seu irmão, supostamente causada pelo dono da cidade e pai do sujeito (O sempre bom de ver Ned Beatty).
Só que a coisa complica quando descobrimos que Ford tem seus próprios planos e embora o titulo do filme entregue, a cena em que ele revela ser um homicida não deixa de ser menos chocante e violenta. Como o filme é frequentemente narrado em primeira pessoa é possível notar como a mente de Ford é doentia e cruel. Em determinado momento ele pensa estar sendo punido por coisas que fez quando criança, mas nem cogita que seja pela série de assassinatos que cometeu simplesmente porque não vê nada errado no que fez. Um comportamento típico de um psicopata impresso cuidadosamente nas entrelinhas de seu personagem. E esses detalhes é que enriquecem a trama deste pequeno, mas grandioso filme.
O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy), de Sam Taylor-Wood. Com Aaron Johnson, Kristen Scott Thomas e Thomas Brodie Sangster
Estréia dia 3 de dezembro
Mais difícil do que dirigir a biografia do líder da maior banda de rock de todos os tempos vai ser eu escrever essa resenha sem repetir demais a palavra mais obvia para descrever John Lennon: gênio. Tenham em mente que ninguém é mais critico e reservado quanto a biografias quanto eu. Principalmente aquelas que aparecem nos finais de ano galgando um lugar nas premiações em sua maioria por apresentar histórias vazias e óbvias, frequentemente apoiadas em atuações mais imitativas do que inovadoras (eu já começo a tremer quando alguém me fala que o ator tal está idêntico ao verdadeiro). Biografias raramente são fieis e quando o ator realmente captura o espírito de sua persona, a história é limitada ou a direção é equivocada (Cazuza) ou mesmo quando funciona, o ator nem sempre lembra o verdadeiro (Frost/Nixon). Este não é, nem de longe, como essa produção deverá ser lembrada.
Baseado nas memórias de uma das irmãs de Lennon (que aparece no filme), o filme esclarece para os fãs como foi a adolescência do cantor, dividida entre a tia que o criou, uma mulher rígida e metódica mas de bom coração, e a mãe, livre e liberal, que ele conhece depois de crescido. Opostos que moldaram a personalidade de um jovem sem muita perspectiva de vida. O filme detalha a paixão pela musica tendo inicio com uma clara influência a Elvis Presley. Alias, o começo de sua carreira como músico é muito bem retrata, principalmente por uma cena em fast motion brilhantemente construída para mostrar como ele aprendeu a tocar seu primeiro instrumento musical.
O encontro com um jovem Paul (Sangster, o filho de Liam Neeson em Simplesmente Amor) logo de cara nos mostra as obvias diferenças, quase opostas de dois gênios (olha a palavra ai de novo) que a principio tinham tudo para não se gostarem. E até para quem não viveu a influência direta dos Beatles, é impossível não sentir um frio na espinha na sutil cena em que ambos ensaiam juntos. Um início que daria origem a centenas de sucessos que até hoje emocionam o mundo inteiro. Tudo isso graças ao trabalho de Johnson, indescritivelmente brilhante, e não estou somente falando da parte física (ele realmente está muito parecido). Em alguns momentos até no timbre de voz ele lembra o verdadeiro.
A fotografia do filme é perfeita - alem de trazer o clima frio da Liverpool da década de 50 para as telas, consegue fazer um trabalho excelente com o uso das cores – algo que mostra perfeita sintonia com a também impecável direção de arte. Há uma cena entre Lennon, sua mãe e tia que coloca toda a tensão e a confusão da cabeça do jovem nos tons de cor que ele e cada uma das mulheres usam.
Dos filmes que vi esse ano, Nowhere boy é um dos que mais merecia indicações a prêmios. Técnicos e artísticos, sem exceção, é um filme da altura do personagem que retrata. Tentei pensar em uma palavra melhor, mas acho que todos vão concordar comigo quando o filme chegar ao seu final (como Ana Maria Bahiana descreveu perfeitamente “um minuto antes do garoto de Liverpool se transformar em John!”), que este é um filme (lá vou eu de novo) genial. Mais do que a biografia de um dos mais influentes artistas do último século, este filme é um retrato de uma época. Uma época que definiu gerações e marcou em definitivo esta excelente expressão artística chamada música.
RED – Aposentados e Perigosos (RED), de Robert Schwenkie. Com Bruce Willis, Mary Louise-Parker, Morgan Freeman e Helen Mirren
Em cartaz
Juntando um improvável, mas competentíssimo elenco de atores – muitos deles indicados e vencedores de Oscars – essa comédia de ação é, sem duvidas, um dos filmes mais divertidos do ano. Seguindo um ritmo extremamente acelerado, sem nunca deixar a peteca cair na história e no desenvolvimento de seus personagens, a produção consegue criar um clima interessante, que mistura muita ação e cenas absurdas (muito bem dirigidas contando com muito efeito especial à lá David Fincher). A edição não esconde a inspiração em uma graphic novel, misturando enquadramentos improváveis com animações de postais para designar as cidades por onde os personagens viajam.
Sem nunca deixar o ritmo do filme cair (passa e você nem percebe), o destaque da produção fica mesmo por conta de Louise-Parker – que faz muito sucesso na série Weeds, mas infelizmente nunca se consagrou como merecia no cinema. Uma pena, pois o grande trunfo de sua personagem está nos olhares solitários e sempre cativantes que distribui ao longo do filme. John Malkovich também está brilhante como o paranóico ex-agente que surtou depois de sofrer onze anos de testes com LSD – alias, é bom vê-lo no papel de alivio cômico ao invés dos frequentes bandidões que ele costuma fazer em 9 entre 10 produções do gênero. É intenso, criativo e extremamente divertido. Mas o melhor de tudo, é que não precisa e nem tenta ser nada alem.
Vá por sua conta e risco
Machete (idem), de Robert Rodriguez. Com Danny Trejo, Robert DeNiro, Michelle Rodriguez e Steven Seagal.
Estréia dia 17 de dezembro
Nunca imaginei que chegaria o dia onde Steven Seagal e Robert DeNiro estariam juntos num mesmo filme. Pois Robert Rodriguez conseguiu, e ainda foi alem. Transformou os dois em vilões e deu o papel de mocinho a um carrancudo e nem um pouco sexy mexicano. É claro que coisa boa não poderia sair de um absurdo desses. O grande problema de Machete é que embora seja baseado num trailer falso (exibido em seu último filme Planeta Terror), os absurdos que funcionavam durante aqueles 3 minutos cansam um pouco em quase duas horas de projeção.
Rodriguez está acostumado a trabalhar com a mesma gangue há muito tempo (me surpreende alias que Quentin Tarantino não tenha aparecido ou dirigido um pedaço deste aqui), mas desta vez ele conseguiu transformar seus eternos coadjuvantes em titulares, o que é louvavel. Infelizmente ele comete o mesmo erro de Era uma vez no México e Planeta Terror enchendo a trama de personagens que morrem a cada 5 minutos e que tiram o brilho da grande estrela do filme. Alem disso, Rodriguez não é diretor de arrancar boas interpretações de um elenco de rostos famosos (ao contrário do amigo Tarantino), mesmo contando com atores do calibre de DeNiro, Jeff Fahey, e até um irreconhecível Don Johnson - que pouco podem fazer embora nunca comprometam. Mas assistir a Jessica Alba e Seagal, e seus rostos inexpressivos soltando frases de efeitos é mais que risível, é brilhante. Pois, planejado ou não, suas atuações só contribuem para o tom tosco e trash da produção.
No fim das contas é Cheech Marin quem disparado ficou com o papel mais divertido de todos. Mesmo sendo uma grande brincadeira e não merecendo ser levado a sério, a produção não passaria alem do esquecível se não fosse pela cena do hospital e a presença questionável de DeNiro (afinal de contas o que ele está fazendo com sua carreira?). É uma piada, mas que se alongou um pouco alem do normal. Nada mais.
Wall Street 2: O dinheiro nunca dorme (Wall Street: Money Never Sleeps), de Oliver Stone. Com Michael Douglas, Shia LeBeouf, Carrey Mulligan e Josh Brolin
Em cartaz
Wall Street (1987) foi um filme-denuncia sobre como engravatados especulavam o maior mercado de ações do planeta para não só fazer mais dinheiro, mas também adquirir mais poder. A lei do “eu posso”. Não é sobre o dinheiro, é sobre o jogo – frase marcante do primeiro filme repetida com ainda mais relevância neste segundo. Tendo como pano de fundo a crise da bolsa que atingiu os bancos americanos causada pela especulação imobiliária em 2008, o filme procura levantar questões ainda mais relevantes sobre aquele mundo dos negócios que atinge diretamente a vida de todos nós, americanos ou não. A primeira metade do filme alias é magistral. A trama chega a ser mais envolvente e mordaz do que o original, e acima de tudo, convenhamos mas fora Douglas e a pequena participação de Martin Sheen, o antigo não tinha atores do calibre de Brolin, LeBeouf e Frank Langella.
Wall Street 2 é portanto disparado o melhor filme de Stone em anos. Um exemplo da qualidade do sujeito como grande diretor, guiando um elenco afinado principalmente pelos novatos LeBeouf e Mulligan. Algumas sequencias e planos são brilhantes – aquela em que a bolsa começa a cair sendo apresentada por uma câmera descendo em alta velocidade e um jogo de dominós é de longe uma das mais marcantes do ano. Infelizmente, se o filme não apelasse para um final feliz e se preocupasse em concluir melhor suas pontas seria um dos melhores do ano. Mas o diretor ainda parece preso a certos maneirismos e soluções fáceis (e inacreditáveis) de roteiro (algo que logo ele costumava ser impecável, vide seus roteiros em JFK, Platton e Scarface) que tem transformado produções com sua assinatura – principalmente W. e As Torres Gemeas – em filmes de mediano para baixo. Este aqui poderia ter terminado na brilhante reviravolta do segundo ato, infelizmente não foi dessa vez. Mas para quem é, assim com eu fã incondicional de Douglas, não vai se decepcionar em assistir o ator voltando ao personagem que lhe deu seu segundo Oscar (o primeiro foi como produtor de Um Estranho no Ninho). E já se comenta nos bastidores que ele é um dos nomes certos para uma nova indicação (até porque, está com câncer e a Academia adora fazer uma média).
Não faça isso com o seu dinheiro
Os Outros Caras (The Other Guys), de Adam McKay. Com Mark Wahlberg, Will Farrell, e Eva Mendes.
Em cartaz
O quão estúpido um filme poder ser? Sempre que assisto uma produção com Will Farrell no elenco eu seriamente me questiono isso. Pra mim o sujeito simplesmente não tem graça nenhuma. Alias, até mesmo quando atuava ao lado de bons atores ou comediantes no Sturday Night Live, o sujeito nunca se destacava. Seus personagens são sempre irreais, apelativos e grosseiros. Comecei a perceber que a coisa iria degringolar logo nos créditos iniciais quando vi seu nome como produtor executivo (leia-se “o sujeito que arruma a grana”, leia-se “quem manda no produto final”). Então não é de se espantar ao perceber que todo o humor do filme é pautado nas idiotices sem lógica que fizeram a carreira – se é que podemos chamar disso – deste sujeito (que, vale lembrar, vem colecionando fracassos, e este aqui não fugiu a regra). Portanto, mesmo tendo Wahlberg como (boa) ponte para suas piadas, a coisa não funciona por falta de empatia do ator com a platéia (comigo, pelo menos, ele tem zero).
Claramente, o filme era para ser uma sátira aos filmes de “policiais que se odeiam, mas são forçados a trabalhar juntos e acabam formando uma amizade enquanto resolvem um complicado caso” (há até uma cena em homenagem aquela do suicida de Máquina Mortífera e ao rebaixamento para o tráfego de Máquina 3), mas este se perdeu no caminho. Alias, a trama é tão ruim que em certas situações eu fiquei literalmente com vergonha por certos atores que eu tinha começado a respeitar fazendo um papel tão imbecil na frente das câmeras. Eu até entendo atores como Michael Keaton e Eva Mendes numa produção como essa para pagar as contas de casa, mas Wahlberg, depois até de ser indicado ao Oscar por um papel muito semelhante realmente deveria repensar sua carreira depois de Date Night e essa bagaça aqui.
Na trama dois heróicos policiais queridos pela cidade (Samuel L. Jackson e The Rock, em uma ponta até interessante) sofrem um acidente e a vaga para substituí-los começa a ser disputada por outras duplas policiais. Uma delas é formada pelos dois retardados (adivinha quem?) que nada têm a ver um com o outro. Caso a trama tivesse sido feita ao contrário, e fosse Farrell quem sofresse o acidente no inicio, provavelmente teríamos um filme mais interessante. Mas ao que parece, nem os americanos aguentam mais esse mala.






