sábado, 29 de janeiro de 2011

Mini-resenhas: Janeiro 2011

Pode ver sem medo


O Besouro Verde (The Green Hornet), de Michel Gondry. Com Seth Rogen, Jay Chou, Cameron Diaz e Christopher Waltz.

Estréia 25 de Fevereiro

Refilmagem da série B produzida na década de 60 que revelou para o mundo ninguém menos que Bruce Lee. Respeitando sua origem no rádio a trama do filme é atualizada para os tempos modernos (o que exige gadgets também modernos) e apresenta uma nova faceta do comediante Seth Rogen (afinal de contas, depois de passar nas mãos de diversos atores como Jake Gyllenhaal e Tom Cruise, quem diria que o papel iria acabar com o comediante gordinho de Ligeiramente Grávidos?). Ele vive Britt Reid, herdeiro de um império milionário criado por seu pai, mas sem expectativas de uma vida melhor. Quando conhece seu motorista Kato, decide aproveitar as habilidades do sujeito para combater o crime convencendo todo o mundo que também são bandidões. O grande trunfo aqui nem é realmente a historia em si, embora ela tenha muito pouco a ver com filmes de super-heróis. O trunfo está na escolha de outro peixe-fora-d água do gênero, o diretor francês Michel Gondry, de Brilho Eterno de uma mente sem lembranças.


Gondry é um mestre em movimentos de câmera e truques de edição, que deixam qualquer fã da sétima arte de queixo caído. Há em especial uma passagem de tempo em que um bandido espalha a notícia do prêmio pela cabeça do Besouro, e a cada pessoa que ele conta, a tela se divide para acompanhar a outra pessoa, e é quase como se o mesmo acontecesse com o operador da câmera que também segue os mesmos. Tudo sem que um único corte aparente seja visto. E isso nem é tudo. Tecnicamente o sujeito aproveita todos os maneirismos de sua estética que raramente ele pode mostrar em suas produções independentes de hábito, mas aqui, com muito dinheiro, ele consegue elevar à décima potencia. E se existia alguma duvida sobre a capacidade do sujeito em conduzir um filme tão amaldiçoado, espere pela primeira cena de ação do filme com as mãos debaixo do queixo.


Rogen vive um herói tão surreal que acaba dando certo. Chou vive Kato com todo o respeito e reverencia para que os fãs de Lee lotem as salas. E Gondry aproveita o melhor de seus atores, que parecem constantemente estar se divertindo em cada take. Alias, uma das melhores coisas do roteiro é ser tão calcado em clichês e, ainda assim, brincar e torcê-los sem entediar o publico. Então, mesmo sendo um filme de super-heróis, ele é um playboy que não sabe lutar e entra no combate contra o crime pela diversão, a mocinha se interessa pelo motorista chinês, e o vilão vive reclamando que ninguém o acha “assustador” o suficiente. Se isso já não for diversão suficiente, vai procurar um filme indiano pra ver.

Ah, claro. Outro atrativo é ver as divertidas aparições especiais de atores conhecidos como Edward Furlong (irreconhecível), Edward James Olmos, Tom Wilkinson e James Franco, em um papel extremamente hilário, contracenando com o maravilhoso Christopher Waltz numa das melhores cenas do filme, provavelmente a mais engraçada do ano.


72 horas (The Next Three Days), de Paul Haggis. Com Russell Crowe, Elizabeth Banks e Liam Neeson

Em cartaz

Dirigido pelo vencedor do Oscar por Crash – No Limite e responsável pela repaginada do agente James Bond nos últimos filmes, Paul Haggins, um roteirista de primeira linha com quem você sempre pode confiar na elaboração de tramas originais, parece ter sofrido um bloqueio artístico nos últimos anos. Só isso para explicar sua refilmagem do francês Pour elle, do longínquo ano de 2008. Não que a trama não seja boa (na verdade é excelente tirando alguns furos aqui e ali, e algumas ajudas divinas ao personagem principal), mas o fato é que devido a um ano de pouquíssimos bons policiais, este aqui acaba se destacando por um excelente trabalho de seus protagonistas e uma direção correta.


Na trama, conhecemos o casal Brennan, ele um professor de historia e ela uma executiva, pais de um menino de oito anos. Depois de um dia difícil no trabalho, descobrimos que Lara é acusada de assassinar sua chefe a golpes com um extintor de incêndio. John não tem duvidas da inocência da mulher embora todas as provas apontem para o contrário, e quando ela é condenada à prisão, ele decide tira-la de lá à força. Tudo muito bem conduzido e contado de maneira ágil e precisa, embora leve um longo tempo para que Haggis finalmente nos leve ao clímax absoluto da produção. Crowe defende o personagem com a precisão habitual e Banks consegue deixar o espectador sempre em duvida quanto a sua honestidade. Quando o caldo finalmente entorna o filme se destaca por não solucioná-lo de maneira abrupta como 90% das produções, mas sim, mostrando cada detalhe da fuga, inclusive os improvisos que surgem ao acaso. Até o final. Ou começo, de acordo com a última cena.


Eu diria que tirando o personagem de Lennie James, como um detetive acima da média que está sempre um passo à frente de todos, e a completamente desnecessária explicação próxima do final do filme, que revela de maneira bem americana o que de fato desencadeou toda a trama, a produção está entre uma das melhores do gênero nos últimos anos. É bem verdade que atores como Liam Neeson, Daniel Stern e Brian Dennehy não fazem mais do que uma ponta (sendo que o ultimo aparece diversas vezes sem pronunciar mais do que duas frases o filme todo. Chega a ser engraçado), mas se você não acabar se divertindo como eu, pelo menos vai gostar dos excelentes vídeos do youtube que ensinam o personagem de Crowe a cometer diversos crimes.



Vá por sua conta e risco


Deixe-me entrar (Let me in), de Matt Reeves. Com Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz e Richard Jenkins.

Em cartaz

Calma gente, este não é um filme pornô. É a refilmagem do também longínquo filme sueco de 2008 (que já começou errado ao trocar de forma equivocada o titulo original “Let the right one in” para “Let me in”, o que não deixa tão clara a dualidade de bem e mal explorada pela trama). Embora eu não goste de comparar um ao outro (até porque dizer que refilmagem nunca é tão boa quanto o original e comparar filmes são clichês mais do que óbvios de qualquer critica ou resenha que você vai ler), o problema aqui é que a não ser pelo maravilhoso trabalho do elenco mirim, há muito pouco que relembre aquela magistral trama baseada num livro sueco. Lembro que na época do filme cheguei a escrever uma apaixonada resenha quase implorando cinéfilos a assistir o filme, certo que ele seria exibido em pouquíssimas salas e não teria o apelo necessário. Dito e feito, poucos puderam ver a produção que agora se esconde na programação de algum canal a cabo menos popular.


Ao contrário do filme original a produção americana se apressa logo em revelar a natureza vampiresca da menina - e não resiste em exagerar na dose extra de sangue ao longo de sua projeção. Disse que pouco relembra o original, mas o diretor Reeves (Cloverfield), até que se esforçou. A trama continua sendo sobre o encontro de duas crianças que aprendem a crescer e lutar contra o mal juntas. Owen sofre de bullying constantemente no colégio e, por ser filho de pais separados que brigam constantemente, se torna uma criança sozinha (aliás, a razão de nunca mostrar o rosto da mãe de Owen nunca fica realmente clara neste filme). Abby, sua nova vizinha, não pode ter amigos porque é vampira (e não estou falando no sentido Crépusculo de vampirismo não. É vampiro hardcore mesmo!). Infelizmente, a paixão do companheiro de Abby (vivido pelo excelente Jenkins, desperdiçado num papel limitado), que todos acreditam ser seu pai, foi omitida da produção para atingir o publico americano. Então o impacto da cena final deixa de abrilhantar o filme como o original (desculpem mas é impossível separar os filmes).


O longa americano perdeu a sutileza do sueco, já que nos filmes europeus olhares e gestos são os astros principais, e neste aqui as coisas precisam ser claramente ditas e mostradas. Embora a estrutura seja muito parecida, as mudanças no roteiro só destroem a trama. A produção chega a cometer até mesmo um erro contra as próprias regras quando Abby claramente entra no esconderijo do menino sem ser convidada. A Idéia de transformar a menina numa espécie de animal faminto é tão equivocada quanto o uso da desnecessária computação gráfica. Pelo menos o diretor teve a coragem de manter o mesmo final brutal e melancólico que encerrava com precisão a produção sueca. Mas se quiser gastar um dinheiro pra vê-lo, não tenho que insistir de novo, né? Fique com o original.

Resenha de Deixe ela entrar


O Turista (The Tourist), de Florian Hanckel Von Donnersmarck. Com Johnny Depp, Angelina Jolie e Paul Bettany.

Em cartaz

Execrado pela critica e ignorado pelo publico americano, esta produção do mesmo diretor do maravilhoso A Vida dos Outros, só deixou cinéfilos realmente curiosos ou revoltados depois que a produção foi indicada para três Globos de Ouro – obviamente uma jogada de marketing para recuperar o dinheiro investido. De fato é muito fácil bater num filme como este. Tudo é um pouco equivocado e visualmente forçado. As cenas de ação não são nem um pouco inovadoras e quase inexistentes para um filme desse gênero. Mas também é impossível assistir a Johnny Depp correndo pelos telhados da belíssima Veneza (uma atração à parte), ou encontrando a estonteante Jolie em um trem e não se lembrar da influencia de Hitchcock na trama.


É claro que a homenagem é valida e, até por isso, o filme tem um gostinho de “já assisti isso antes”. Mas assim como nos filmes do mestre do suspense o grande trunfo aqui está na força do elenco principal. Depp é um dos atores mais queridos de sua geração e parece ter renovado a carreira depois de sua indicação para o Oscar com o cartunesco Capitão Sparow. Angelina Jolie, bem, embora seja uma atriz de talento, aqui não precisa fugir muito de sua habitual pose de dama, andar elegante, e olhos sedutores (que é o que todo mundo quer vê-la fazer mesmo. Ou vão dizer que não reclamaram dela estar mais “Rambo” do que feminina em Salt?). Os dois vivem um romance forjado por ela para despistar a Scotland Yard de seu verdadeiro alvo, um golpista internacional, namorado da moça, que roubou um magnata russo em alguns milhões. Enquanto todos procuram pelo tal sujeito – que está de alguma forma sempre presente no filme (vocês vão saber por quê) – os dois tentam convencer o publico de que a química da dupla é pra valer. Embora o final seja quase obvio depois de uma enxurrada de reviravoltas improváveis, eu diria que O Turista é tão relevante quanto esquecível. E por isso mesmo uma diversão sem pretensão do alarde que fizeram.


Monstros (Monsters), de Gareth Edwards. Com Whitney Able e Scoot McNairy

Sem data de estréia

Imagine se o mundo de hoje fosse habitado por criaturas alienígenas que vieram parar aqui por acaso e agora são tratadas com violência e intolerância por nós humanos. Refilmagem de Distrito 9? Quase. Na verdade a única semelhança entre as duas produções são a excelente qualidade dos efeitos especiais e o baixo investimento. Mas este filme de um também desconhecido diretor, oriundo da TV, não tem a pretensão de ser um arrasa-quarteirão, como o filme sul-africano de 2009. Monstros é uma produção bem menor, filmada quase em sua totalidade com câmeras na mão e em formato documental. Embora tenha vencido prêmios mundo a fora (foi indicado até para o BAFTA) e destaque absoluto no último festival de Sundance, a produção não tem muito de memorável.


O filme inicia nos explicando que durante a volta de uma sonda da NASA que carregava DNA alienígena para o planeta terra, um acidente ocorreu espalhando seu conteúdo em uma determinada área do México e EUA. Pulamos para o futuro e percebemos que o território agora se encontra demarcado e policiado constantemente pelo exército americano. É então que conhecemos um repórter metido a pegador chamado Andrew, que recebe a missão de resgatar a filha do dono do jornal para o qual trabalha, que se encontra inexplicavelmente perdida no México e ferida em meio a pior época de caça aos ETs. De cara, o romance não acontece, mas como o plano inicial de voltar para os EUA dá errado, os dois começam a conhecer mais sobre como os americanos exercem sua força destrutiva e opressora sobre os mexicanos, e em meio a indignação e o medo, nasce o amor (?!?).


É claro que existe ai uma mensagem atual e pacifista, ainda mais descarada na cena em que vemos a enorme muralha que separa os dois países. Mas é tudo muito forçado, desde os diálogos até as atuações inexpressivas dos atores principais. Os efeitos até valem o filme, mas são tão poucos que nem por isso eu posso recomendar. Mas se quiser realmente entender o final do filme, você precisa prestar detalhada atenção as primeiras cenas antes dos créditos.



Não faça isso com o seu dinheiro


Incontrolável (Unstoppable), de Tony Scott. Com Denzel Washington, Chris Pine e Rosario Dawson.

Em cartaz

Tony Scott, irmão mais aloprado de Ridley, tem feito muita porcaria já há algum tempo – a maioria com a presença de Denzel –, mas agora ele realmente conseguiu. Pra começo de conversa: um trem? Sério? Um trem descontrolado? Se eu sou o diretor de bons filmes como Fome de Viver e Inimigo do Estado, e colocam na minha mesa um roteiro sobre um trem, eu demito o sujeito na hora. Ah, mas não é qualquer trem. É um trem que age por conta própria, uma força da natureza, grande, bruto e mortal – sim, mortal. O primeiro trem serial killer da história, com direito até a alguns acordes apavorantes para gelar sua espinha antes dele fazer mais uma vítima. Não, caros leitores, não é qualquer trem.


E o pior é que os roteiristas, acreditando piamente em nossa estupidez, ainda criam uma situação em que o trem não causará somente muitos danos se descarrilar. Não, isso não seria suficiente. Então, que tal essa? O trem esta carregado de produtos químicos e explosivos altamente instáveis – juro pelo o que quiserem que deve ter sido exatamente assim que algum gênio jogou a idéia durante a reunião de pauta da produção. Então, vai contando ai comigo: Trem, imenso, desgovernado, em alta velocidade, sem condutor, e carregado produtos inflamáveis. É tanta tragédia somada que só faltaram colocar um vagão tripulado por crianças terminais, filhotes de cachorros, a Madre Tereza, a cura do câncer, e o último casal de pandas da face da terra.


A incompetência do sistema de controle ferroviário contrapõe com a velocidade em que a imprensa que cobre o evento é capaz de nos informar seguidamente e com uma rapidez sobre-humana o que está acontecendo (e que não muda durante o filme todo, “o trem está vindo e vai explodir”), e ainda fazer animações em 3D das possibilidades utilizadas para parar o trem. Isso é que é uma imprensa da era digital, rápida e eficiente. Agora, o pior de tudo é a maneira que os roteiristas resolvem o problema - que imediatamente nos leva a obvia pergunta, ‘por que diabos eles não fizeram isso antes?’. Totalmente previsível, imbecil, e exagerado – até na sentimentalóide cena final o diretor insiste em acelerar a edição com desnecessários cortes e seqüências em alta velocidade. Pobre Scott-caçula. Não é a toa que ele decidiu fazer a continuação do seu Top Gun no ano que vem. A falta de imaginação impera e, essa sim, é incontrolável em Hollywood.

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